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9 razões para regressar ao Alto Minho

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Visitámos um convento transformado em hotel, conhecemos dois produtores de vinho Alvarinho, comemos em restaurantes de mesa farta e descobrimos o único museu do cinema do País. Dispensámos o fado e só não fomos a Viana do Castelo, nesta crónica de viagem com nove paragens

O antigo convento foi convertido, em 2008, em hotel rural, pela família proprietária

O antigo convento foi convertido, em 2008, em hotel rural, pela família proprietária

1. Hotel Rural Convento dos Capuchos, Monção

O convento do século XVIII, onde se avista o rio Minho e a vizinha Espanha, foi adquirido pela família dos atuais proprietários em 1905. “O meu avô queria impressionar o futuro sogro”, conta Adriana Rodrigues, que cresceu neste lugar privilegiado, a dois passos do centro histórico de Monção. Funcionou como tribunal, escola, residência particular e, já no século XXI, a família questionou-se sobre o destino a dar ao edifício. Resolveram apostar no turismo e, em 2008, abriram o Convento dos Capuchos Hotel Rural, fazendo uma sábia combinação entre história e modernidade. Dos 24 quartos, 11 estão localizados na ala recuperada e os restantes numa ala nova, onde também fica o spa e o ginásio. No exterior, siga o passeio dos frades, entre ramadas de alvarinho e jardins de bambu.


Quinta do Convento dos Capuchos > Antiga Estrada de Melgaço, Monção > T. 251 640 090 > a partir de €78 (quarto duplo)

O mosteiro beneditino está completamente isolado

O mosteiro beneditino está completamente isolado

2. Igreja de Sanfins de Friestas, Valença

No concelho de Valença, isolado por um frondoso e denso bosque de espécies autóctones, chegamos por uma estrada de terra batida a Sanfins de Friestas, uma igreja de linhas românicas, alta e de janelas estreitas, para que o mal não entre. Pertencente à ordem beneditina, o mosteiro de Sanfins de Friestas (classificado como monumento nacional) remonta à segunda metade do século XII, embora a construção se tenha prolongado até ao século XIII. A 200 metros de altitude, afastado das povoações, era local de recolhimento daquela comunidade religiosa. O mosteiro, desabitado há longos anos, está praticamente em ruínas, mas a igreja e o aqueduto que o ladeia mantêm (miraculosamente) uma preservação aceitável. Continua a não se encontrar vivalma ao seu redor, o que contribui para o seu encanto.

Algumas das janelas do restaurante têm vista para o claustro do convento dos Capuchos

Algumas das janelas do restaurante têm vista para o claustro do convento dos Capuchos

3. Restaurante Cozinha do Convento, Monção

O restaurante do hotel Convento dos Capuchos chama-se Cozinha do Convento e merece uma referência. É liderado por Marco Conde, que aplicou técnicas e apresentação contemporânea à boa cozinha tradicional minhota. Veja-se o caldo-verde com chouriça crocante, a trilogia de bacalhau (o cliente pode escolher três dos pratos de bacalhau da lista), o duo de bochecha ou o cordeiro à moda de Monção. A sala mantém alguns elementos arquitetónicos do passado enquanto capela privativa do convento, com uma decoração elegante e sóbria.


Convento dos Capuchos Hotel Rural > Quinta do Convento dos Capuchos, Antiga Estrada de Melgaço, Monção > T. 251 640 090 > seg-dom 12h30-15h30, 19h30-22h30 > €17 (preço médio)

A coleção ajuda a contar a história da Sétima Arte

A coleção ajuda a contar a história da Sétima Arte

4. Museu do Cinema, Melgaço

É um museu improvável no centro histórico da vila raiana de Melgaço. Mas foi o escolhido por Jean Loup Passek – antigo coordenador do Dicionário Larousse de cinema e do festival de cinema de La Rochelle, além de responsável pelo departamento de cinema do Centro Georges Pompidou – para acolher o espólio que recolheu, organizou e classificou ao longo de décadas. Inaugurado em 2005, o Museu do Cinema de Melgaço ajuda a contar um pouco da história da sétima arte, com a sua impressionante coleção de aparelhos de nomes estranhos, como fenaquistiscópios, praxinoscópios, lamposcópios e zootrópios ou rodas da vida, alguns deles do século XIX. Todos ainda a funcionar e a deixar as imagens ganharem vida. No piso superior do edifício da antiga guarda-fiscal, fazem--se exposições temporárias, a partir do espólio de Passek, um francês com coração português, como gosta de se descrever.


R. Jean Loup Passek, Melgaço > T. 251 401 575 > ter-dom 10h-12h30, 14h30-19h > €1

Uma cardenha, construção rudimentar usada pelos pastores como abrigo

Uma cardenha, construção rudimentar usada pelos pastores como abrigo

5. Aldeia Val de Poldros, Monção

O nome de “aldeia dos hobbits” pegou, dadas as semelhanças com o cenário do filme O Senhor dos Anéis. A 1200 metros de altitude, o povoado de montanha é um dos exemplos da transumância humana no Alto Minho. Tradicionalmente, esta branda era apenas habitada durante os meses de verão (nos restantes descia-se à inverneira Riba de Mouro), para aproveitar os viçosos pastos, utilizando os pastores como abrigos as cardenhas. Construções rudimentares de granito, com teto baixo para preservar o calor, de que ainda ali existe um conjunto muito significativo e possível de preservar. O único habitante de Val de Poldros, proprietário do restaurante com o mesmo nome, fixou-se nesta aldeia em 2004. “Era tanto o silêncio que parecia que fazia mal”, conta Fernando Gonçalves. Aos poucos, os clientes do restaurante foram chegando e, com eles, admite, foi aprendendo o que devia pôr à mesa (T. 251 561 401/ 93 489 4364 > seg-dom 10h-19h, jantares por encomenda). “Depende da época do ano e do que tenho à mão”, diz. Pode ser uma aveludada sopa de saramagos (uma planta silvestre), feijões afogados (misturados com arroz e massa), um novilho assado ou um valente costeletão de novilho. Pratos bem apurados, para comer de preferência ao calor da salamandra, que por estas b(r)andas o vento frio sopra impiedoso.

A 13 de junho, em Val de Poldros, há romaria de Santo António, uma das mais genuínas do Alto Minho: uma das casas do santuário é sorteada entre os romeiros, ficando assim à disposição do vencedor durante um ano.

Uma das mais impressionantes pontes medievais do rio Laboreiro, a Ponte Nova ou da Cava da Velha, é monumento nacional

Uma das mais impressionantes pontes medievais do rio Laboreiro, a Ponte Nova ou da Cava da Velha, é monumento nacional

NFACTOS/Fernando Veludo

6. Castro Laboreiro, Melgaço

A descrição detalhada das castrejas, pelo guia Francisco Marques, da Bliss Tours, transforma-as em figuras quase mitológicas. As “viúvas de homem vivo” (obrigados a emigrar para sustentar a família) vestiam-se com um pesado capucho negro, para afastar qualquer tentativa de sedução. Sozinhas, cuidavam dos filhos, das terras e do gado, tendo apenas como companhia os cães de Castro Laboreiro, a raça autóctone, boa para guarda e pastoreio. Na vila, atualmente, é raro avistar uma castreja, mas até ao final da viagem pelo Alto Minho havemos de fantasiar com estes vultos.
À volta de Castro Laboreiro, os vestígios da ocupação humana remontam a cinco mil anos, pertencem às culturas dolménica e castreja, encontrando-se antas, dólmenes, menires e castros. Para pernas ágeis, aconselhamos o percurso até 1025 metros de altitude, onde se encontra o castelo, quase em ruínas, mandado construir por D. Dinis no século XIII, com uma vista magnífica da região. O conjunto de pontes medievais do rio Laboreiro, a que o nosso guia dá o nome de “pontes mágicas”, merece igualmente uma visita.

Nelson Garrido

7. Hotel Minho, Vila Nova de Cerveira

Em dezembro de 2013 foi concluída a renovação e ampliação do Hotel Minho, um projeto assinado pelo arquiteto João Pedro Pereira, do Coletivo Virgula i. As madeiras claras e o mármore branco bem como os materiais preponderantes da intervenção dão aos espaços um estilo nórdico, simples, elegante e confortável. Todos os 60 quartos duplos têm varanda ou terraço, existindo ainda cinco suítes independentes do edifício principal do hotel, ideais para famílias, inspiradas no universo de cinco mestres da pintura. Destaque-se ainda o spa, com muita luz natural e vistas desafogadas, o primeiro da marca austríaca Vinoble, que trabalha toda a essência da uva branca na sua linha de cosmética. Ou não estivéssemos bem perto da região do Alvarinho.


Estrada Nacional 13, Vila Meã, Vila Nova de Cerveira > T. 251 700 245 > a partir de €80 (quarto duplo)

A adega da Quinta da Pedra está aberta a visitas, finalizadas com provas na loja, onde podem comprar-se todos os vinhos do mundo Alvarinho da Idealdrinks

A adega da Quinta da Pedra está aberta a visitas, finalizadas com provas na loja, onde podem comprar-se todos os vinhos do mundo Alvarinho da Idealdrinks

8. Na rota do Alvarinho, Monção e Melgaço

A casa de granito pertence à família materna de Miguel Queimado desde 1683. Esteve ao abandono durante cerca de duas décadas, até o agrónomo, nascido e criado em Lisboa, ter decidido ali fixar--se. “Nas férias de verão adorava andar por aqui”, recorda. “É uma história que não se perde no tempo”, encara o agora produtor da marca de vinhos Vale dos Ares. A Quinta do Mato, a propriedade de quatro hectares onde está inserida a casa, numa meia encosta da sub-região de Monção e Melgaço (antigo concelho de Valadares), dedica-se quase exclusivamente à casta Alvarinho. “Temos que deixar que este terroir expresse algo diferente nas uvas.” Para os visitantes, organizam-se provas de vinhos, visitas à exploração, refeições no edifício secular ou piqueniques.

De um pequeno para um grande produtor, chegamos à Quinta da Pedra, a maior propriedade contínua de Alvarinho, com 40 hectares, no concelho de Monção. Esta é uma das muitas propriedades adquiridas por Carlos Dias, o emigrante português que criou a marca de relógios suíços de luxo Roger Dubuis e que, depois de a ter vendido, resolveu investir no negócio dos vinhos, criando a empresa Idealdrinks. O edifício imponente da adega, construído em 2011, com o betão armado cravado de corações a imitar a filigrana, foi inspirado nas muralhas de Monção. Ali se concentra a produção de três marcas: Quinta da Pedra, Longos Vales e Senhoria. Este ano, aproveitando a destilaria de topo, irão lançar pela primeira vez aguardentes.


Quinta do Mato > Lugar do Mato, Sá, Monção > T. 251 531 775
Quinta da Pedra > Longos Vales, Monção > T. 251 652 775

A carne cachena está em destaque no restaurante Chafarix

A carne cachena está em destaque no restaurante Chafarix

9. Restaurante Chafarix, Melgaço

O almoço farto deixou-nos convencidos quanto à qualidade da cozinha do Chafarix. Em destaque, estiveram os pratos confecionados a partir da carne de vaca cachena, que conseguiu a denominação de origem protegida em 2002, graças à iniciativa da Cooperativa Agrícola de Arcos de Valdevez e Ponte da Barca. A carne da raça autóctone, habituada aos rigores e aos pastos naturais da serra da Peneda, tem conquistado cada vez mais paladares. No Chafarix, provou-se costela mindinha e naco, ambos suculentos e muito saborosos. Ao domingo, a cachena não falha no restaurante, mas nos restantes dias convém fazer reserva. Há outras especialidades recomendáveis, como o bacalhau à Alvarinho, o cabrito e, na sua época, a lampreia.

Pç. Amadeu Abílio Lopes, Melgaço > T. 251 403 4009 > ter-qui 12h-15h, 19h-22h, sex-dom 12h-15h, 19h-23h > €12 (preço médio)