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À flor da pele: quando tatuar é uma arte

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Muito mudou no mundo da tatuagem desde que, nos anos 90, abriram os primeiros estúdios, com imagens sugeridas por catálogo. Em Lisboa e no Porto, encontrámos uma nova geração de tatuadores, com ligação às artes e ao desenho, procurados pelo seu traço

Há dois anos, Hugo Makarov foi convidado a acompanhar a vinda de Ami James, do programa televisivo Miami Inc., ao Rock in Rio. O pagamento foi uma tatuagem

Há dois anos, Hugo Makarov foi convidado a acompanhar a vinda de Ami James, do programa televisivo Miami Inc., ao Rock in Rio. O pagamento foi uma tatuagem

José Carlos Carvalho

Ilustrar o corpo

Começou por estudar História e esperava vir, um dia, a desenhar achados arqueológicos. Mas, rapidamente, mudou o caminho. E é um caminho que não acaba mais. Hugo Makarov, 37 anos, é ilustrador e tatuador. Criou a boneca Popota, para o Continente; ilustrou as audiências do processo Casa Pia para a Lusa, uma edição de O Principezinho, com anotações de José Luís Peixoto, e o livro Papa Quilómetros, do chefe de cozinha Ljubomir Stanisic. Pelo meio, enfeitou, com Mário Belém, a Pensão Amor, no Cais do Sodré, com “senhoritas fogosas” e integrou a equipa portuguesa de graffiters que andou a disputar paredes pela Europa, no encontro Secret Wars, trazendo de lá um honroso terceiro lugar.
Hugo – que escolheu Makarov, a pistola russa, para alcunha por gostar da sonoridade da palavra – anda sempre com um estojo de lápis e um caderno atrás. Tal como no dia em que entrou na Bad Bones, no Bairro Alto, em Lisboa, onde gostaram tanto dos seus desenhos que o convidaram a ficar. “Fartei-me, era muito puxado”, confessa. Só que a tatuagem “é um bichinho” e não demorou muito até integrar a equipa da Bang Bang Tattoo, em Sintra, onde está há oito anos. “Foi aí, com mais tempo, que defini o meu trabalho”, diz.
Animais ferozes com corpos de homem, demónios, figuras femininas são alguns dos desenhos que tatua na pele. E se um cliente aparece no estúdio já com uma tatuagem em mente, Hugo está disponível para a fazer desde que a possa adaptar ao seu estilo. “Desenho à minha maneira e quem conhece o meu traço sabe que fui eu. É este o caminho que me interessa”. Pior dia de trabalho? “Quando um cliente entra mudo e sai calado. Tirando isso, dá-me um imenso gozo o que faço.” E vê-se.

Hugo Makarov > Bang Bang Tattoo > Av. Heliodoro Salgado, 88, Sintra > T. 21 923 2128 > seg-sáb 10h30-19h > a partir de €50

Em agosto, Tânia Catclaw vai estar a tatuar num estúdio em Berlim, o epicentro do tipo de trabalho que faz, repetindo a experiência do ano passado

Em agosto, Tânia Catclaw vai estar a tatuar num estúdio em Berlim, o epicentro do tipo de trabalho que faz, repetindo a experiência do ano passado

José Carlos Carvalho

Traço geométrico

Como um desenho a aguarela, Tânia Catclaw, 29 anos, tatua a pele com cores que transbordam o contorno de figuras e formas geométricas, dando-lhes movimento. A trabalhar há cinco anos na El Diablo, no Chiado, em Lisboa, quem a procura sabe ao que vai. “Passei um ano a tatuar o que as pessoas pediam e eu, que estava a estudar nas Belas Artes, queria era fazer tatuagens mais gráficas e artísticas, como já se fazia, por exemplo, em Berlim”, recorda. “Optei por estar um tempo só a fazer aquilo que realmente me dava gozo. E a verdade é que quando comecei a mostrar o meu trabalho, as coisas mudaram”, conta.
Para lhe conhecer o traço, espreite-se a conta no Instagram ou a página de Facebook que funciona como porta aberta para um primeiro contacto de quem quiser ter uma tatuagem desenhada por si. “Fez diferença vir das artes”, acredita. “Não estou em nenhum destes mundos – o das tatuagens e o artístico. É um meio-termo. Quando desenho já estou a pensar no resultado e quando estou a tatuar, é como estivesse a desenhar”. É só uns dias antes da data marcada que Tânia mostra a sua proposta. “Não tem que ficar exatamente igual ao original. Durante a sessão vou falando com a pessoa e posso propor, por exemplo, acrescentar-lhe uma linha.”
Tânia tem a agenda preenchida nos próximos quatro meses. Diz que o mundo das tattoos está mais interessante. “Há uma vaga de bons tatuadores, mais artísticos e com maior sentido estético. Por outro lado, as pessoas também já procuram algo mais personalizado e não se contentam só com catálogos”. E é isto que faz a diferença entre “darem-te um desenho e acordar todos os dias feliz para tatuar”.

Tania Catclaw > El Diablo > Lg. Rafael Bordalo Pinheiro, 30, Lisboa > T. 21 347 6126 > seg-sáb 11h-20h > a partir de €50

Susboom e Vesna não têm catálogo – os desenhos são feitos propositadamente para cada cliente e nunca mais são usados. 
E só no final de junho é que reabrem a agenda para novas marcações

Susboom e Vesna não têm catálogo – os desenhos são feitos propositadamente para cada cliente e nunca mais são usados. 
E só no final de junho é que reabrem a agenda para novas marcações

Rui Duarte Silva

Dupla de desenhadores

Não são meras tatuagens, as que Susana Barros (Susboom, nome artístico) e Rui Pedro (ou Vesna), 31 e 32 anos, respetivamente, fazem na pele. “Sou tatuadora, mas ilustradora. Uso todas as ferramentas pensando sempre na ilustração”, conta Susboom que, tal como Vesna, é formada em artes plásticas, desenho e ilustração digital, e já fez trabalhos para programas de televisão infantis. O coletivo do Minimal Ink – estúdio que abriram há três meses no Porto, depois de três anos em Lisboa – é sinónimo de liberdade criativa. “Aqui não há catálogo, o que vale é a arte”, diz Susana, enquanto a precisão da mão retoca um corvo tatuado em Nuno Capela. Os desenhos são feitos especificamente para cada cliente, após uma conversa prévia, daí que “nunca mais sejam usados” e só atendam uma pessoa por dia. A manhã de Rui (Vesna) tinha sido passada a esboçar “uma andorinha com um laço vermelho na boca” que iria tatuar, dois dias depois, a pedido de uma cliente. “Temos uma base, mas na pele há sempre uma adaptação.” Certo é que o estilo de Susboom (conhecida “pelo traço fino e aguarela, estilo geométrico, com retas, símbolos, triângulos, contraste de volume e linhas”) e de Vesna – prefere “coisas mais sólidas, carregadas, pontilhados, mandalas, geométricos e minimais” – tem conquistado adeptos e até já passou fronteiras. Frequentemente são procurados por clientes da Escócia, Canadá, Inglaterra, Austrália… Há dias receberam uma americana, de New Jersey, que aproveitou as férias no Porto para marcar antecipadamente uma tatuagem no Minimal Ink. “Parece que, em cada país, tatua algo na perna”, contam. Susboom desenhou-lhe um porco desconstruído em origami. “Todas as tatuagens são desafiantes e difíceis”, afirma Vesna, que já trabalhou numa agência de publicidade. “É um desenho para a vida e a parte mais interessante é essa: as pessoas transportam a nossa arte na pele.”

Susana Barros (Susboom) e Rui Pedro (Vesna) > Minimal Ink > R. Formosa, 297, 1º andar traseiras, Porto > T. 91 622 2010/91 245 5689 > ter-sáb 11h-19h30 > a partir de €50

  • Serginho, o tatuador dos jogadores de futebol

    Sair

    Há mais de duas décadas que, pelas mãos de Sérgio Carvalho, passa a pele de atrizes, jogadores de futebol e outras celebridades. No entanto, muito tem mudado no mundo das tattoos em Portugal - descubra a nova geração de tatuadores no tema de capa da VISÃO Se7e desta semana