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Arroios, um bairro de contrastes em Lisboa

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A maior freguesia do coração de Lisboa tem 40 mil habitantes e todos os dias passam por lá mais de 200 mil pessoas. Percorremos as ruas do seu eixo central, descobrimos novos negócios que convivem lado a lado com velhas lojas e – seis horas e 11 quilómetros depois (bem medidos e cronometrados com a app Run Keeper!) – aqui fica o que vale mesmo a pena conhecer em Arroios

O mural de arte urbana Introspeção, de Frederico Draw e Rodrigo Alma do Coletivo RUA, na Rua Dona Estefânia, assinala os 25 anos da Associação Portuguesa de Apoio à Vítima

O mural de arte urbana Introspeção, de Frederico Draw e Rodrigo Alma do Coletivo RUA, na Rua Dona Estefânia, assinala os 25 anos da Associação Portuguesa de Apoio à Vítima

Mário João

É na Praça José Fontana que damos o sinal de partida desta aventura que tenta chegar a todo o bairro em plena mudança. Desde a remodelação do Intendente, em 2012, para a qual até o New York Times chamou a atenção, que as pessoas se reaproximaram da freguesia de Arroios. As alterações disseminaram-se depois aos Anjos, com as casas velhas do Bairro das Colónias a ganharem novos inquilinos. A população sente-se perto de tudo, bem servida pela linha verde do Metro, com boas doses de sossego e de diversão.
No eixo central de Arroios, nas ruas Estefânia, Pascoal de Melo, Passos Manuel e Almirante Reis, e suas adjacentes, começam agora a abrir novos negócios, ao lado dos que persistem há largas décadas. A zona tornou-se também ponto de passagem de turistas e há até novos hotéis para os receber. O Neya Lisboa, de quatro estrelas, muito perto do Hospital D. Estefânia, tem no seu restaurante Viva Lisboa uma mais-valia. A funcionar de forma autónoma e com porta para a rua, aposta numa cozinha de fusão mediterrânica preparada pelo chefe Pedro Santos Almeida, discípulo de Miguel Laffan, que faz a consultoria da carta. São vizinhos da Hexágono, a loja que começou, em 1989, com antiguidades e reproduções dos séculos XVIII e XIX e que entretanto se especializou em mobiliário vintage. Quem também chegou há pouco tempo, em outubro passado, à Rua D. Estefânia foi Olga Ferreira Hilário, do Slash Creative Hair Studio, que de salão de bairro não tem nada. “Somos um cabeleireiro-boutique para um público que trabalha e tem pouco tempo livre”, explica. No lugar das habituais revistas cor-de-rosa, há tablets com catálogo de penteados e apanhados feitos em meia hora, basta ter o cabelo lavado. Em direção ao Largo D. Estefânia, cruzamo-nos com Vítor Rodrigues que, há um ano, não hesitou em abrir ali a Leituria, juntamente com a mulher, Margarida Mendes, e uma amiga, Carmen Ventura. “É uma zona muito curiosa. Um polo rodeado de vários polos centrais”, diz. A Leituria não é apenas uma livraria. Logo à entrada, destaca-se o artesanato de artistas nacionais ou que morem em Portugal, como as malas FootNote, feitas com câmaras de ar recicladas, as peças das Contadeiras de Histórias, não há duas iguais, o Figurado de Barcelos, algo muito tradicional assinado por Júlia Ramalho, as serigrafias do Dedo Mau, um ilustrador lisboeta. Nas prateleiras, além dos livros de 300 editoras portuguesas, também há produtos gourmet e vinhos. “Tentamos apresentar edições com pouca visibilidade, como a poesia da Averno, os fanzines da Ignota e da A Tua Mãe. Quem edita pouco e com critério quase de certeza que tem aqui lugar”, sustenta Vítor Rodrigues, ele próprio nascido e criado no bairro que tem a biblioteca pública mais antiga de Lisboa. Trata-se da Biblioteca S. Lázaro, de 1883, fica para os lados do Desterro e está instalada num edifício de arquitetura neoclássica erudita dos finais do século XIX. Arriscamos dizer que não há ninguém que não fique boquiaberto com a beleza do seu Salão Nobre, com a disposição hexagonal da sala, o mezanino e o mobiliário da época.

Leituria

Leituria

Alexandre Bordalo

De praça em praça: da Estefânia à Ilha do Faial
Quem desce a Rua Almirante Barroso, (já falta pouco para estar frondosa com os seus jacarandás), desemboca no Largo D. Estefânia, com a estátua do Neptuno que já esteve na Praça do Chile e no Chafariz do Loreto. A loja Prazeres da Terra, aberta há três anos, é paragem obrigatória para provar os sabores nortenhos dos pastéis de Chaves, das cristas de galo (recheadas com doce de ovos) ou dos pitos de Santa Luzia (com doce de abóbora). Uma perdição. Cheias de sabor e verdadeiras lições de hospitalidade são as refeições no Zaafran, o restaurante indo-moçambicano do casal Bob e Fátima. Desde 2008 que ninguém sai do Zaafran sem saber comer uma chamuça como deve de ser. Bob não deixa e insiste: é preciso cortá-la em três; pegar pelas pontas e espremer algumas gotas de limão para o interior; temperar com o picante molho verde, feito de malaguetas... verdes. Dobrando a esquina, para o lado do Jardim Cesário Verde, a Casa Senna ainda resiste. Fundada em 1834, já é considerada a mais antiga casa de desporto da Europa. É pela venda de grandes estruturas, como as paralelas e as simétricas para a ginástica, as camas elásticas e os trampolins, que vão sobrevivendo. O mesmo não aconteceu à Casa Belita, fechada vai para três anos, embora pareça estar só fechada para almoço, com as montras ainda com tecidos, lãs, panos e babetes.
Já na Praça da Ilha do Faial, a Espiral é um símbolo de resistência. “Quando abrimos, em 1978, os clientes eram só vegetarianos, mas hoje em dia isso já não acontece. Apesar da recente quebra de consumo, há um interesse crescente por parte das pessoas de ano para ano”, afirma Manuel Valventos, dono daquele que é um dos primeiros restaurantes vegetarianos de Lisboa. Neste self-service, na cave, quase todos os pratos, adaptações vegetarianas de comidas do mundo, são feitos com produtos biológicos. Subimos as ruas envolventes, sempre de nariz no ar, à espera de surpresas. Sabe onde comprar livros em segunda mão em inglês? A resposta está na Bookshop Bivar, na Rua de Ponta Delgada, da finlandesa Leena Marjola, uma contabilista de Helsínquia que sonhava em abrir uma livraria. Descer as escadinhas da Rua da Ilha do Pico leva-nos à porta da Horta dos Brunos, um dos restaurantes preferidos de políticos e empresários, onde – entre um bom prato de cabidela ou de lampreia e um copo de vinho – se fecham alguns negócios. É por aqui que ainda se encontram algumas das antigas vilas da cidade. Pena é que, por exemplo, a Vila Mendonça, na Rua Cidade da Horta, se pareça com um condomínio fechado por um portão verde com uma vintena de caixas de correio.

Gutsy

Gutsy

Mário João

Pela Pascoal de Melo fora
Na Rua Pascoal de Melo, clássicos como a loja Ballet e Etc., ou a Sacoor, ao lado da Vila Luz, convivem com recém-chegados: a Queijadaria com fabrico próprio de mais de dez queijadas diferentes, o mobiliário infantil com design da Oops ou os hambúrgueres da Gutsy. Depois da estreia em Carcavelos, no fim de 2014, a hamburgueria abriu em Arroios no segundo dia deste ano. Enquanto a esplanada no logradouro não está pronta, há 80 lugares no interior para provar um suculento hambúrguer, entre oito de novilho, dois vegetarianos, um de salmão e outro de rosbife. Bons para partilhar são o Gutsy, uma peça de 480 gramas, e as oito miniaturas, uma espécie de degustação.
Cada vez mais próximos do Jardim Constantino, comprovamos: o nº 16 da Rua Aquiles Monteverde, que se dizia ser o prédio mais estreito da Europa, com uma fachada de apenas 1,60 metros de largura, foi demolido, em 2011. Premiada pelo seu pastel de nata, também a pastelaria Aloma escolheu as antigas instalações da Pucel, na Rua José Estêvão, esquina com a Rua Alexandre Braga (a da companhia de teatro Clube Estefânia) para se instalar. Ainda não tem o toldo preto, mas já lá se comem os pastéis de nata.
Na Rua Passos Manuel, entre lojas de velharias e antiguidades, encontram-se bons restaurantes tradicionais como O Vitral, Vasku's, célebre pelos fondues e pela sangria de espumante de pêssego, e O Raposo, que começou nos anos 1960 como tasca, daquelas onde se bebiam copos de três e comiam petiscos, e só, em 1978, se transformou em restaurante conhecido pela sua montra de peixe fresco, com pratos de sável e de lampreia, caldeiradas, cataplanas, e também carnes maronesa, barrosã ou cabrito assado. Foi também nesta rua que, em 1972, nascia a editora Assírio & Alvim, há quatro anos no grupo Porto Editora. No nº 67B fica agora a livraria Sistema Solar, que também edita ficção e vende livros da Documenta (catálogos de exposições e ensaios), da Pedra Angular (espiritualidade religiosa) e da própria Assírio. À porta do número 102, na Loja dos Pijamas, João do Cante dá dois dedos de conversa com as vizinhas que ainda lhe compram um outro par de collants. “Acho que abri a J. Pechincha em 1977… Foi retrosaria e vendi roupa de criança até 2000. Depois mudei para roupa de homem, senhora e interiores. Tenho aqui meias 100% algodão e feitas em Portugal a 80 cêntimos e bibes escolares a sete euros e meio, mas as pessoas preferem pagar mais e ver réclames”, desabafa João do Cante. “A gente aqui da rua está envelhecida, há famílias jovens mas que não compram. Vamos aguentando… desde que dê para a sopa. Estas lojas estão condenadas, olhe ali a Ferrador [na Pascoal de Melo] resistiu 84 anos, até dezembro.” Depois da tentativa de algumas empregadas para ficarem com o negócio, diz-se por ali que os herdeiros da Ferrador preferiram o dinheiro. Por ser especializada em artigos de caça e pesca, a Casa Diana sobrevive há 68 anos nas mãos da família de Ilda de Almeida, a primeira armeira portuguesa. Mais antiga ainda é a Cervejaria Portugália que, em 2015, fez 90 anos. No balcão, um dos mais emblemáticos da cidade, começaram-se por servir acepipes e cerveja aos clientes que aguardavam, à porta da fábrica, que os barris de cerveja se enchessem.

Há Tapas no Mercado

Há Tapas no Mercado

Mário João

Do Chile ao novo mercado
Atravessada a Avenida Almirante Reis, lá ao fundo fica a Praça Olegário Mariano. Não fosse o mural gigante de arte urbana da dupla ucraniana Interesni Kazki e nem dávamos conta dela. O ateliê de costura da Mamã Dá Licença já era nesta morada e, por isso, Paula Dias não hesitou em abrir também aqui a loja de roupa para crianças. Quem não arriscou foi o conjunto de lojistas do Centro Comercial Portugália. No nº 113 da Almirante Reis só resta uma gráfica, antiguidades, um cabeleireiro e uma costureira. Ainda nos lembramos de ali ter aberto, há 23 anos, a Carbono, primeira loja de discos usados em Portugal. No vizinho da frente, no nº 90, a cave do Centro Comercial Habib mantém os ateliês de costura de uns quantos alfaiates vindos da Serra Leoa, do Senegal e da Guiné que, com mestria, sobem bainhas, apertam calças, mudam fechos e viram colarinhos. Num bairro onde cabem mais de 75 nacionalidades, o Pomar Fresco é um bom exemplo de integração. Qualquer semelhança entre o Frutalmeidas e o Pomar Fresco do nº 78 é pura coincidência. As irmãs chinesas Shan Lele e Shan Yiyi nunca passaram pela loja que se dedica ao comércio de fruta na Avenida de Roma. Abriram no ano passado como mercearia, onde também servem sumos naturais e salada de frutas. É possível comprar a fruta e elas trituram na hora. Onde é que em Lisboa se bebe um copo de sumo de morango por 95 cêntimos?
Inverte-se a marcha rumo à Praça do Chile e à Morais Soares, a mesma do Supermercado Japão, com o seu dono, o senhor Jorge, a fazer rimas desde 1983. Na Oficina do Amolador, na Almirante Reis, António Garcia ainda é do tempo de fazer noitadas até às duas da madrugada a reparar chapéus de chuva. “Na década de 60 era uma loucura. Tinha tantos clientes que fazia fila lá fora e pensavam que se dava bacalhau, numa altura em que escasseava”, lembra. Aos 72 anos, António lamenta que não haja quem queira seguir o ofício. “Agora também já não há costureiras para afiar tesouras e os talhantes já só vêm mês a mês, quando vêm...” Com a remodelação do Mercado de Arroios na reta final – a presidente da junta, Margarida Martins, assegura que até meados de abril tudo estará terminado –, António Garcia ainda não percebeu como isso dinamizará a zona. Por enquanto, os clientes dos restaurantes ainda não frequentam as outras lojas do bairro. Opinião partilhada por António Monteiro, de A Samaritana, na Rua José Ricardo, onde há mais de oito décadas se vendem chás, plantas medicinais, cafés, rebuçados, bolos e frutos secos a granel.
No interior do Mercado de Arroios, em forma de círculo, enquanto as vendedoras de frutas, legumes e peixe chegam-se para um lado, termina-se a empreitada do outro. Do lado de fora, com entradas pela rua, já há quatro restaurantes a servir refeições. Na Tasca do Mercado, o casal Vanessa e Miguel Pereira investiu tudo o que tinha para contratar Hugo Antunes, antigo chefe do Pap'Açorda, restaurante do Bairro Alto que está prestes a mudar-se para o Mercado da Ribeira. Aqui comem-se pratos lisboetas, como o bife à marrare, pataniscas, peixinhos da horta, pica-pau ou favinhas. Duas portas depois, Há Tapas no Mercado assume-se como loja de produtos regionais e casa de petiscos da serra preparados por Sónia Maurício, que depois de 20 anos ligada ao marketing decidiu mudar de vida, juntamente com o marido, Pedro Batista. Com o passeio ainda esburacado mesmo à porta, André Peralta, da Pizzeria Viavai, chega por volta das seis e meia da tarde. Vinha atrasado para acender o forno a lenha. Depois de dois anos a trabalhar em Londres, nos restaurantes de Gordon Ramsay, instalou-se no Mercado de Arroios para fazer pizzas napolitanas.
Seis horas depois e palmilhados 11 quilómetros chegamos ao fim da nossa aventura por Arroios. E tanto que ainda ficou por dizer... Os restaurantes chineses Mr. Lu e Grande Palácio Hong Kong, frequentados pela própria comunidade; as duas campanhas de sensibilização saídas do Orçamento Participativo da junta de freguesia, uma para não alimentar os pombos e outra para deitar as beatas no cinzeiros; a Piscina de Arroios, no Mercado do Forno do Tijolo, aberta a 22 de fevereiro; a emissão online da Arroios TV e o clássico Mercado 31 de Janeiro. Arroios não é um bairro, é um mundo.

António Garcia na Oficina do Amolador

António Garcia na Oficina do Amolador

Mário João