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Garagem com cão e cascata

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Crónica Por Lisboa

Rosa Ruela

Rosa Ruela

Jornalista

Não é por falta de vocabulário que a palavra “delicioso” e outras da mesma família pegaram de estaca nestas crónicas. Há mais do que uma razão para elas criarem raízes por aqui, confessa-se, mas a principal tem a ver com o prazer que consola os sentidos e o espírito, prometido nos dicionários.
Vem isto a propósito da delícia que é sermos surpreendidos 200 metros depois de entrarmos nos terrenos do Hospital de S. José pelo túnel do Instituto de Medicina Legal. Basta ceder à curiosidade e ver o que existe para lá das portas encimadas por uma parreira junto a um parque de estacionamento desarrumado. A recompensa está nas paredes de uma garagem, pintadas aqui e ali por um motorista do hospital.
Logo à entrada, Fernando Gonçalves escolheu pôr o cão Alicate e uma cascata de revista. Alicate era um cachorro quando começou a aparecer na garagem; um dia, estava ele já muito velho, desapareceu sem dar notícias, ficando o pintor de serviço com vontade de o recordar. A meio da garagem, à direita, há duas ambulâncias que parecem feitas a esquadro e uma Virgem Maria (mais pastorinhos) num tem-te-não-caias da azinheira. E por cima da porta com um papel a anunciar “Gambrinus”, lá está São Cristóvão, padroeiro dos motoristas e viajantes.
Foi na tropa que Fernando aprendeu a usar o lápis de carvão. Hoje usa o que calha, até pode ser uma esferográfica como aquela com que desenhou o deliciosíssimo crocodilo que nunca larga.