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A prova de resistência do Atlântida Cine

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Aberto há mais de 30 anos, o Atlântida Cine, em Carcavelos, é o último dos cinemas de bairro na Linha de Cascais

"Sou um independente, não devo nada a ninguém", diz Fausto Semedo, proprietário do Atlântida Cine, em Carcavelos

"Sou um independente, não devo nada a ninguém", diz Fausto Semedo, proprietário do Atlântida Cine, em Carcavelos

José Carlos Carvalho

A música de Nat King Cole embala os minutos que antecedem a sessão. Apagadas as luzes, a cortina há de abrir-se para as apresentações do que está em cartaz e das próximas estreias, antes do início do filme. Sem publicidades, note-se. E durante duas horas, com intervalo pelo meio, a magia acontece no grande ecrã. A programação é cuidada e selecionada, mas do que aqui importa não é só o filme. Porque o cinema também é a sala. Espaçosa, com cadeiras confortáveis. O bar tem cadeirões para breves leituras. Ou o bengaleiro, para deixar o casaco.
Houve um tempo em que existiam dezenas de cinemas de bairro. Assim, como o Atlântida Cine, em Carcavelos, a funcionar há mais de 30 anos. Um tempo em que ir ao cinema era um hábito (pelo menos) semanal, como frequentar a loja, a mercearia ou o café. Aberto em março de 1983, o Atlântida está integrado num pequeno centro comercial – era assim a modernice nos anos 80 –, vencido entretanto pelos concorrentes gigantes que fazem (também) do multiplex um chamariz. “A crise já vai longa, só se foi acentuando”, diz Fausto Semedo, 70 anos, que trocou a construção de estradas e barragens em Moçambique, onde nasceu, por uma paixão de vida, nesse Portugal que acolhia quem chegava de uma viagem forçada. “Comprei um retângulo vazio, foi tudo idealizado por mim”, conta. Em 1993, e em contracorrente a um panorama que já não era famoso, decide fazer uma segunda sala e o bar. “Sou um independente, não devo nada a ninguém. Se há um bom filme, vou buscá-lo. E sou muito rigoroso com a programação, como em tudo, de resto”, afirma.
Hoje, as sessões estão longe de esgotar e fazem-se de quem gosta de bons filmes e se mantém fiel a este género de cinemas, cada vez mais difíceis de encontrar, mas que tornam a vivência de um bairro (ou de uma cidade) mais afetiva. “Há gente que dá valor ao esforço, e vem”, diz Fausto Semedo. Caberá a outros que este não seja em vão.

Com duas salas de cinema e três sessões diárias, o Atlântida Cine encerra à terça-feira (dia de pouca afluência) e, nos meses de julho e agosto, para manutenção, aproveitando-se assim a menor oferta de filmes de qualidade