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"Scarlatti: 52 Sonatas" pelo pianista Lucas Debargue: Engenhosas interpretações

Livros e discos

Scarlatti, em quem Glenn Gould dizia que não havia frases infelizes, recebe tratamento de honra por um notável jovem pianista: Lucas Debargue. A caixa de quatro discos, Scarlatti: 52 Sonatas, é a sua gravação mais recente

Luís M. Faria  

Lucas Debargue foi o jovem pianista que se apresentou no Concurso Tchaikovsky, em Moscovo, e que, terminando em quarto lugar, ficou na realidade em primeiro – quem se recorda do vencedor? Esta caixa de quatro discos, com as sonatas de Scarlatti, é a sua mais recente gravação (com a marca da Sony Classical)

Lucas Debargue foi o jovem pianista que se apresentou no Concurso Tchaikovsky, em Moscovo, e que, terminando em quarto lugar, ficou na realidade em primeiro – quem se recorda do vencedor? Esta caixa de quatro discos, com as sonatas de Scarlatti, é a sua mais recente gravação (com a marca da Sony Classical)

As sonatas de Domenico Scarlatti (1685-1757) são um caso especial na História da Música. Compostas para uma aluna do compositor, a infanta portuguesa Maria Bárbara, que ele acompanhou em Madrid quando ela se casou com o rei Fernando VI, exibem uma inventividade constante que desmente a natureza de mera “brincadeira engenhosa” que Scarlatti modestamente lhes atribuía. Por tradição, servem de amuse-bouche em recitais de piano, o que não tem mal nenhum, pois quantas vezes a entrada é a melhor coisa numa refeição. A limpidez da escrita de Scarlatti faz das sonatas uma forma ideal de limpar o paladar musical antes das pièces de résistance.

O pianista Vladimir Horowitz usava-as assim, e ainda hoje é uma delícia voltar a escutá-las nos registos dos seus recitais ao vivo. Desde então, muitos outros pianistas se dedicaram às sonatas, e alguns dos discos resultantes – por exemplo, o fabuloso duplo de Mikhail Pletnev há mais de 20 anos – são dos melhores registos de piano jamais gravados. Citando mais um russo, recordem-se dois discos recentes de Yevgeny Sudbin, com uma amplitude sonora notável que não exclui algumas liberdades, aliás bem-vindas.

Lucas Debargue está nos antípodas de Sudbin. O seu Scarlatti não vai no sentido do orquestral nem da velocidade. São interpretações de linhas cheias, sem pirotecnia, fugindo a qualquer espécie de efeito nebuloso. Mas rapidamente detetamos um outro tipo de poesia que não é menos original – atenta, subtil e deliberada. Com uma extraordinária técnica adquirida em poucos anos e já tarde para os padrões habituais, Debargue durante muito tempo preferiu a literatura. E se calhar ainda prefere. A imaginação agradece.