Visão Sete

Siga-nos nas redes

Perfil

7 (boas) sugestões de leitura para este outono

Livros e discos

Romance, thriller, reedições e prosas curtas. Seleccionámos 7 bons livros para ter por perto neste outono

1. A Aventura de um Fotógrafo em La Plata, de Adolfo Bioy Casares

Derradeiro romance de uma das grandes vozes da literatura latino-americana do século XX. Publicado em 1985, A Aventura de um Fotógrafo em La Plata (Cavalo de Ferro, 160 págs., €15,49) revela traços distintivos do autor de A Invenção de Morel: a dimensão onírica e misteriosa que transparece de acontecimentos aparentemente ordinários, a ambiguidade de sentidos. Aqui, relata-se a chegada de um jovem fotógrafo, Nicolasito Almanza, à cidade argentina La Plata. Como numa espécie de thriller subtilíssimo, em que não percebemos bem de onde vem o desconforto, a força da narrativa desenvolve-se a partir da sua relação com as personagens daquele lugar. A propósito deste livro e de terríveis acontecimentos da ditadura militar da Argentina, o autor escreveu: “Não creio que uma pessoa possa sonhar um tão terrível pesadelo sem continuar a escrevê-lo depois de acordar.” P.D.A.

2. As Sensacionais Aventuras de Jim Joyce: O Ás dos Detetives Americanos, de Reinaldo Ferreira

De um autor icónico pode esperar-se, das gerações futuras, novas leituras e atenção editorial. A Reinaldo Ferreira (1897-1935), mítico Repórter X, jornalista de imaginação prodigiosa, nada tem faltado. Nas últimas décadas registam-se várias reedições, mas nenhuma se compara às da Pim Edições!, pelo cuidado gráfico, pela revisão do texto e pelo enquadramento literário e biográfico. É o que acontece com este terceiro título lançado, As Sensacionais Aventuras de Jim Joyce: O Ás dos Detetives Americanos (Pim! Edições, 352 págs., €16,60). Publicadas em 1924, no Brasil (não se sabe se também em Portugal) e nunca reunidas em livro, narram as missões secretas de um detetive em Nova Iorque, com infinitas reviravoltas e desenlaces surpreendentes.

3. O Custo de Vida, de Deborah Levy

Felicitámos, nestas páginas, a tradução portuguesa do primeiro volume da trilogia autobiográfica de Deborah Levy, escritora sul-africana há muito radicada em Londres. E o entusiasmo mantém-se com a publicação do segundo tomo, O Custo de Vida. Escrita na ressaca de uma crise pessoal, em que todo o seu mundo ruiu, do casamento às ilusões literárias, Levy renasceu nesta prosa desarmante, que tem tanto de íntimo quanto de construção ficcional. É de si que fala, sem filtros, mas também de uma época – os anos 80 e 90 europeus depois da fuga ao Apartheid (o seu pai era um ativista pelos Direitos Humanos). E, neste segundo volume, de uma condição: a de mulher. Um manifesto feminista, poderoso e subtil, que reflete sobre o preço e a força de uma vida livre.

4. A Paciente Silenciosa, de Alex Michaelides

Se quer um thriller para estas noites longas, então a sua procura pode ter terminado. A Paciente Silenciosa (Presença, 372 págs., €17,90), do anglo-cipriota Alex Michaelides, é um livro viciante, um page turner como sói dizer-se, designação que faz aliar a velocidade da leitura à sua qualidade. Neste caso, os dois ingredientes estão mesmo intrincados, fruto talvez dos muitos anos que o autor, nascido em 1977, leva como argumentista. Tudo se passa num hospital psiquiátrico, onde a pintora Alicia Berenson está presa, depois de ter matado o marido. O seu último quadro, pintado já depois do assassínio, tem como título Alceste, evocação da famosa peça de Eurípides, na qual uma mulher aceita morrer na vez do marido. Desfazer o paradoxo é a obsessão de Theo Faber, psicoterapeuta criminal.

Divulgacao

5. Contaminações. Minas Abandonadas, de José Afonso Furtado

O autor deste Contaminações (Documenta/Sistema Solar, 192 págs., €29), José Afonso Furtado, confessa-se logo a abrir: “Durante quinze anos, desde 1994, não fui de férias, fui para as minas, como se vai para as termas ou como se vai à terra. Não era obrigação ou encomenda, não tinha prazos nem propósito. Quando fui forçado a parar, fiquei com milhares de negativos, com um ligeiro conhecimento do universo mineiro e com vários dados colaterais.” Durante esses anos, sem compromissos, o fotógrafo (que na altura dirigia a Biblioteca de Arte da Fundação Calouste Gulbenkian) visitou então “áreas mineiras degradadas” do Norte e do Sul do País, com o objetivo de registar paisagens lunares onde não se vê vivalma, estruturas ao abandono, ruínas desoladas, edifícios-fantasma… Entre as minas retratadas, estão as de Argozelo (Vimioso), São Domingos (Mértola), Lousal (Grândola), Rio de Frades (Arouca), Vila Cova (Vila Real), Borralha (Montalegre), Panasqueira (Covilhã e Fundão), Ribeira (Bragança) e Caveira (Mértola). Uma parte dessas imagens dos tempos pré-lítio integra agora este livro cujas fotografias (189, no total) tanto têm de inquietantes quanto de sedutoras. Como escreve a historiadora Maria do Carmo Serén, “neste tempo de saturação do olhar, do ‘já visto’, só mesmo os jogos da linguagem da fotografia nos podem surpreender.” S.B.L.

6. Histórias de Cronópios e de Famas, de Julio Cortázar

É um dos mais singulares livros de Julio Cortázar, o que não é afirmar pouco, já que o escritor argentino soube emprestar a cada obra um carácter único, quase irrepetível, do conto ao romance, do ensaio às memórias ficcionadas. Publicado em 1962, Histórias de Cronópios e de Famas foi concebido uma década antes, depois de um concerto de Igor Stravinsky, em Paris. Nele, Cortázar explora com intensa liberdade os limites do surrealismo e do absurdo, campos que sempre o seduziram. Os cronópios e os famas do título são seres imaginários, uns idealistas, outros mais formais, que moldam um certo olhar sobre a origem das histórias, os tipos sociais e o papel do leitor. Prosas curtas, em boa hora reeditadas pela Cavalo de Ferro (136 págs., €15,49), que nos conduzem ao magma criativo de um dos grandes autores do século XX.

7. História de Roma, de Javier Ramos

Só ao ler o título completo se percebe que este não é apenas mais um livro sobre o tempo dos Césares, Augustos, Júlios e Cláudios: Isto Não Estava no Meu Livro de História de Roma (Marcador, 272 págs., €16,60) é uma abordagem divertida e heterodoxa ao império que se estendeu da Península Ibérica ao Médio Oriente, e que transformou o Mediterrâneo num grande lago privado. Na verdade, Roma sempre deu que falar, em todas as épocas, até à sua queda em 476. Não lhe faltam personagens imprevisíveis e costumes sociais e militares improváveis. Alguns episódios são muito conhecidos, outros, como o funeral de uma mosca, esperam leitores mais curiosos. Jornalista e apaixonado por História, o espanhol Javier Ramos devolve-nos a exuberância da vida, sempre inesperada, que se esconde atrás dos factos.