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"Rubberband", de Miles Davis: Os anos 80 sonhados por um mestre

Livros e discos

Vê, finalmente, a luz do dia o disco inacabado de 1985. Num trabalho de edição e de produção que o músico aprovaria. Rubberband, de Miles Davis, já se ouve por aí

Tiago Freire

Tiago Freire

DIRETOR DA EXAME

Rubberband nasce de gravações originais de 1985, com os seus produtores de então (que regressaram agora) a completarem o que, acreditam, era a visão de Miles Davis. Pode ser a primeira de várias edições de inéditos que os herdeiros do músico estão a preparar

Rubberband nasce de gravações originais de 1985, com os seus produtores de então (que regressaram agora) a completarem o que, acreditam, era a visão de Miles Davis. Pode ser a primeira de várias edições de inéditos que os herdeiros do músico estão a preparar

No final de 1985, Miles Davis deixara a Columbia, sua editora nos 30 anos anteriores, e mudara-se para a Warner. Nessa época, o músico vivia fascinado pela música contemporânea que via na MTV e, sedento como sempre de transformação, queria ser protagonista para mais uma nova geração. O seu último disco para a Columbia, You're Under Arrest, já o tinha visto brincar com a pop, e essa linguagem passou para o seu projeto seguinte, este Rubberband. As sessões duraram alguns meses, para um trabalho que viveria entre a pop, o jazz e até algum hip-hop que ia metendo a cabeça de fora. Acontece que a Warner torceu o nariz ao que foi ouvindo. Rubberband ficou, assim, inacabado, e Davis acabou por embarcar na aventura que resultaria em Tutu, de 1986. O disco, agora editado, ganhou, ao longo dos anos, uma aura de tesouro perdido, até que os descendentes de Davis – que andam a indiciar que há muita coisa interessante por editar, como gravações com Prince – decidiram ressuscitar o projeto. A bordo estão os três produtores originais, um dos quais o sobrinho do músico, Vince Wilburn Jr, que também foi baterista nessas sessões. Pegaram no material gravado, chamaram duas vocalistas e foram trabalhando em cima disso.

Este não é um álbum perdido, gravado, finalizado e deixado na prateleira, mas, sim, um trabalho laborioso de produção contemporânea, procurando manter o espírito original de Miles e o seu amor pelo som estilizado dos anos 80, com o seu funk digitalizado. É impossível perceber onde Davis terminou e onde os produtores “inventaram”, mas Rubberband é um disco muito interessante. Firmemente ancorado na década de 80, com toques (ou tiques) de produção que enjoaram mas regressaram com o estatuto “vintage”. Atrevemo-nos a dizer que Miles Davis, sempre à procura da fusão e da próxima aventura, aprovaria este trabalho.