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"O Beco da Liberdade", de Laborinho Lúcio: Um romance sobre compreender sem julgar

Livros e discos

Um juiz, um jornalista e o tempo: três formas de avaliar os atos humanos num romance surpreendente. O Beco da Liberdade, a terceira ficção de Álvaro Laborinho Lúcio, já chegou às livrarias

O Beco da Liberdade (Quetzal, 240 págs., €16,60) é a terceira ficção de Álvaro Laborinho Lúcio, que também tem publicado obras na área do Direito. Nos dois casos, sempre com o foco na Justiça e no País

O Beco da Liberdade (Quetzal, 240 págs., €16,60) é a terceira ficção de Álvaro Laborinho Lúcio, que também tem publicado obras na área do Direito. Nos dois casos, sempre com o foco na Justiça e no País

Escrevíamos, em 2014, reagindo à estreia literária de Álvaro Laborinho Lúcio, que esperávamos que o réu reincidisse no crime. Felizmente, o juiz--conselheiro jubilado do Supremo Tribunal de Justiça reincidiu mesmo, com O Homem que Escrevia Azulejos, em 2016, e agora com O Beco da Liberdade, dois romances que o confirmam como uma singular voz no atual panorama literário. Se nos dois primeiros livros sobressaía o observador atento às transformações sociais da História recente de Portugal, O Beco da Liberdade centra-se na grande marca da sua vida: a Justiça. Mas desengane-se quem pensa que estamos perante a recriação literária de um qualquer caso que teve de julgar ao longo da sua carreira. Esta é uma história banal, igual a tantas outras. Os ingredientes do enredo são importantes e bem urdidos pelo autor, mas mais relevante é a “moral” que lhe está subjacente.

Um crime ainda ecoa na memória de uma aldeia do Norte do País, sobretudo na do jornalista que na altura fez a cobertura. Só que agora, passados 50 anos, é o juiz que se senta no banco dos réus. E os dois, juiz e jornalista, voltam a encontrar-se. A partir deles, Laborinho Lúcio tece uma engenhosa reflexão sobre o ato de julgar, tão central no imediatismo do jornalismo, na ponderação da justiça e na sabedoria do tempo, verdadeiros protagonistas do romance. Talvez o ser humano esteja condenado a julgar, por feitio ou necessidade. Mas ao escritor, tal como ao juiz e ao jornalista, cabe a impossível missão de também compreender. Entre o bem e o mal, o difícil caminho da sabedoria.