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Na pele de Eça de Queirós na obra "As Batalhas do Caia", de Mário Cláudio

Livros e discos

Um romance que também é uma homenagem, de um escritor que gosta de revisitar o património literário português. Há muito esgotada, a obra As Batalhas do Caia, relançada para celebrar os 50 anos de vida literária de Mário Cláudio, chegou às livrarias

Ao longo de 2019, Mário Cláudio celebra 50 anos de vida literária, o que inclui o relançamento de algumas das suas obras esgotadas, como As Batalhas do Caia (D. Quixote, 160 págs, €13,90)

Ao longo de 2019, Mário Cláudio celebra 50 anos de vida literária, o que inclui o relançamento de algumas das suas obras esgotadas, como As Batalhas do Caia (D. Quixote, 160 págs, €13,90)

Camilo Castelo Branco, Bernardo Soares, Amadeo de Souza-Cardoso... São muitas as figuras artísticas e literárias que povoam a obra de Mário Cláudio. Sem complexos e com muita criatividade, o escritor não se inibe de convocar grandes vultos ou criações da cultura portuguesa para dentro dos seus romances. É uma apropriação amorosa, nascida da vontade de ir além da admiração. Esse mesmo exercício encontramos em As Batalhas do Caia, publicado em 1995 e agora em segunda edição. Com Eça de Queirós como personagem principal, a trama anda à volta de um romance que o autor de Os Maias nunca concluiu. O que essa obra poderia ter sido encontramos nesta engenhosa e admirável ficção de Mário Cláudio.

“Que escândalo! Que escândalo!” Quando Eça de Queirós leu a um membro da embaixada portuguesa em Londres (na altura, Eça era cônsul em Newcastle upon Tyne, mais tarde em Bristol) excertos do romance A Batalha do Caia que ele andava a escrever, a reação foi de quase pânico. Um diplomata a escrever um romance que imaginava uma invasão espanhola a Portugal? Um grave incidente diplomático! Inspirado pelo desconcerto do funcionário, Eça congeminou um plano: pedir ao governo uma recompensa por não publicar esse romance (que ainda não tinha escrito...). Ninguém alinhou na “chantagem”, nem Ramalho Ortigão, cúmplice de outras aventuras, e A Batalha do Caia ficou-se pelo projeto (resta um guião) e por um conto, também nunca publicado (A Catástrofe). É a partir de todos estes elementos, alguns mordazes, outros improváveis, que Mário Cláudio constrói a sua narrativa. A batalha passa a plural, porque se acrescenta matéria à já de si matéria literária. Em jeito de homenagem, o escritor ficciona o dia a dia de Eça de Queirós, as suas frustrações e epifanias, e propõe uma redação para um romance que nunca houve. Na guerra da escrita, a vitória da imaginação.