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"Western Stars", de Bruce Springsteen: O poder do veterano

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Treze novas canções como só o “boss” sabe fazer. Em Western Stars, a voz da América volta a ouvir-se, a contar-nos histórias ao ouvido

Desde 2012 que não havia um disco com canções novas de Bruce Springsteen

Desde 2012 que não havia um disco com canções novas de Bruce Springsteen

Nem é preciso tradução, mesmo para os menos familiarizados com a omnipresente língua inglesa. O ponto é que ninguém canta “from town to town...”, “I wake up in the morning, just glad my boots are on” ou “so I work all day out here on the county line” como Bruce Springsteen. Até poderá haver quem o faça, mas estará mesmo a imitar o músico nascido em Nova Jérsia em 1949. É mais do que um estilo, no caso de Springsteen é questão de uma identidade já histórica, familiar um pouco por todo o mundo (como as que conhecemos por detrás da voz de Dylan, Cohen ou Lou Reed).

Aqui temos, então, o “boss” a dizer-nos ao ouvido: “Same old cliché, a wanderer on his way, slippin’ from town to town.” E tudo isto soa a reencontro. Afinal, desde 2012 que não havia um disco com canções novas de Bruce Springsteen (Wrecking Ball, marcado, ainda, pela consequências globais da crise financeira de 2008/2009). O seu mais recente álbum, High Hopes, foi lançado no início de 2014 mas revisitava material antigo, em novas versões.

No primeiro disco de Bruce Springsteen na era Trump não se esperava encontrar uma insistência na palavra “hope” (esperança), mas a verdade é que Western Stars também não é um disco de combate ou de intervenção, como muitos esperavam. Até pode ser, mas de uma forma serena e indireta, regressando (35 anos depois do histórico e comprometido Born in the U.S.A., que ainda hoje alimenta mal-entendidos) a canções com personagens e histórias dentro – gente perdida, à procura, viajantes em busca de uma nova vida, de se encontrarem, de se pacificarem com as suas memórias. Fala-se da pop californiana dos anos 60/70 como influência sonora para estas canções, mas, em 2019, estas orquestrações exatas, ora discretas ora épicas e grandiosas, surgem como uma espécie de “música clássica”, códigos históricos do cancioneiro norte-americano mas liberto da repetição dos clichés da country e dos blues.

Chega-se ao fim das 13 canções de Western Stars e sentimos que a música de Bruce Springsteen tem uma função a desempenhar hoje: assegurar-nos da certeza da América, de uma certa América, entre mito e realidade.

Kalle Gustafsson / trunkarchive

No seu 19º disco de estúdio, Bruce Springsteen dispensou a presença da E Street Band. Mais de 20 músicos contribuíram para o registo das 13 novas canções de Western Stars, produzido (tal como os dois discos anteriores) por Ron Aniello.