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Da electrónica à música clássica: 6 novos discos para fazer play

Livros e discos

No Geography, nono álbum dos britânicos Chemical Brothers, não defrauda os fãs. Mas as novidades não se ficam por aqui: falamos também do novo disco dos brasileiros Liniker e os Caramelows, do regresso de Mísia, de um disco-livro com clássicos do cancioneiro infantil português e ainda de Symphony No. 3, de Henryk Górecki, por Beth Gibbons, a extraordinária voz dos Portishead

Luís M. Faria, Miguel Judas e Pedro Dias de Almeida

2. No Geography, The Chemical Brothers

Convenhamos: a fórmula musical dos The Chemical Brothers pode, facilmente, cair na repetição irrelevante e sem chama de velhos truques. E, nomeadamente ao vivo, o duo britânico, composto por Tom Rowlands e por Ed Simons, já esteve muito perto desse efeito de cansaço... Afinal, andam nestas lides desde 1989 (apesar de o primeiro álbum, Exit Planet Dust, ser de 1995), como pioneiros na mistura entre a cultura da música de dança eletrónica (que reinava em raves e em clubes) e uma abordagem mais pop, assente em refrões e no formato canção. Com alguma surpresa, deve-se reconhecer que neste novo disco, No Geography, estão próximos da frescura original, jogando até com as mesmas regras de sempre. Para isso, muito contribui a voz de Aurora, cantora norueguesa de apenas 22 anos, presente em várias faixas – e, sobretudo, aquela velha e irresistível vontade de dançar quando se carrega no play. P.D.A.

3. Goela Abaixo, Liniker e os Caramelows

O grupo de Araraquara, no interior de São Paulo, alarga ainda mais o seu já de si amplo universo sonoro neste segundo álbum. Liderados pelo andrógeno Liniker Barros, um cantor com voz e visual de diva soul, a banda ascendeu, em 2015, à primeira divisão da nova música brasileira, à boleia do EP de estreia Cru. Um ano depois, seguiu-se o álbum de estreia Remonta, gravado em regime de crowdfunding e que os fez partir à descoberta do mundo em cima de um palco. É esse mesmo mundo que agora condensam em Goela Abaixo, disco gravado um pouco por todo o lado e com influências tão díspares como a soul, o jazz ou as músicas da América Central e do continente africano. Como se percebe em Beau, um tema cheio de swing, gravado em Berlim e no qual se ouvem sintetizadores típicos da música etíope dos anos 60, à mistura com as vozes de cantores ganeses. A música de Liniker não conhece fronteiras – estéticas ou, mesmo, de género. M.J.

1. Canções de Roda, Lenga Lengas e Outras que Tais, por Ana Bacalhau, Jorge Benvinda, Sérgio Godinho e Vitorino

Concebido de raiz para o festival Sol da Caparica, em 2015, o espetáculo Canções de Roda, Lenga Lengas e Outras que Tais reuniu em palco Ana Bacalhau, Samuel Úria, Sérgio Godinho e Vitorino, para interpretar alguns grandes clássicos infantis portugueses. Agora, regressa como um disco-livro (com ilustrações de Cláudia Guerreiro). Do quarteto inicial, saiu Úria e juntou-se Jorge Benvinda, mas o pressuposto inicial manteve-se. O convite partiu de António Miguel Guimarães, o programador do festival, que desafiou o quarteto e o pianista Filipe Raposo, responsável pelos arranjos, a reinterpretarem alguns clássicos do cancioneiro infantil português que todos sabemos de cor (como Indo Eu, Indo Eu a Caminho de Viseu, Ó Rosa Arredonda a Saia, Tia Anica de Loulé ou As Pombinhas da Catrina). O alinhamento inclui, ainda, três contos inéditos da autoria de Vitorino, Sérgio Godinho e Ana Bacalhau, bem como temas de cada um dos intervenientes que, de certa forma, encaixam neste imaginário (por exemplo, É Tão Bom, de Sérgio Godinho, Um Contra o Outro, dos Deolinda, Queda do Império, de Vitorino e também a célebre Canção de Embalar, de José Afonso). O resultado é um disco para pessoas de todas as idades. M.J.

4. Debussy, Fauré, Szymanowski, Chopin, por Rafal Blechacz e Bomsori Kim

O pianista Rafal Blechacz, chopiniano de referência, vencedor do concurso de Varsóvia em 2005, conheceu a violinista sul-coreana Bomsori Kim através da transmissão televisiva de um outro concurso, em que ela não venceu mas ficou em segundo. Convidou-a para ser sua parceira em recitais de música de câmara, e ela aceitou. O resultado discográfico inicial dessa decisão chega-nos, agora, com um programa sofisticado, onde o élan romântico-impressionista da grande sonata de Gabriel Fauré (1845-1924) é seguido por Claude Debussy (1862-1918) – uma das três últimas sonatas escritas durante a I Guerra Mundial, como afirmação do espírito musical francês – e por Karol Szymanowski (1882-1937), polaco como Blechacz e merecedor de maior popularidade do que a que tem, embora os últimos anos tenham corrigido isso um pouco (ele era o compositor que Pierre Boulez, em anos tardios, dizia ter o desejo de explorar melhor). A terminar, e como que a saudar um anjo tutelar do programa, a breve transcrição de um noturno póstumo de Chopin. L.M.F.

5. Symphony No. 3: Henryk Górecki, por Beth Gibbons and the Polish National Radio Symphony Orchestra

Também conhecida como “sinfonia das canções tristes”, esta peça, em três andamentos, composta pelo polaco Henryk Górecki em 1976, deve chegar a novos ouvintes por via do convite feito a Beth Gibbons (a extraordinária voz dos Portishead) para ser a soprano nesta nova gravação, realizada num concerto em novembro de 2014 e agora editada. Sem surpresa, há um tom melancólico que atravessa todo o disco e que o timbre de Gibbons serve na perfeição. O registo foi feito no Teatro da Ópera Nacional, em Varsóvia, com a orquestra da Rádio Nacional Polaca a ser dirigida pelo maestro Krzysztof Penderecki (que, em 2012, assinou um álbum a meias com Jonny Greenwood, dos Radiohead). Este disco, com a marca da Domino Records, é, pois, sinal de um cruzamento de referências e de um universo musical sem barreiras, mas dispensando qualquer fogo de artifício, heterodoxias ou facilitismos – aliás, a peça minimal e sóbria de Górecky (a fazer lembrar a música do estoniano Arvo Pärt) não seria, de todo, compatível com esses efeitos. Ao fim destes 55 minutos musicais, não há como fugir a uma espécie de luz vagamente sombria (ou sombra levemente iluminada?) que nos envolve. P.D.A.

6. Pura Vida, Mísia

Falar, hoje, de reinvenção do fado é lugar-comum que pouco ou nada acrescenta, mas no caso de Mísia esse é um conceito inerente a todo o seu percurso. Fê-lo sem nunca perder o norte da tradição, como mais uma vez acontece em Pura Vida, talvez o seu trabalho mais completo, pelo modo como canta a vida e o destino, que não é apenas triste ou somente alegre, antes uma mistura de tudo, como o próprio fado – que nunca deixa de o ser, nem quando uma guitarra elétrica substitui a guitarra portuguesa ou quando é cantado em castelhano ao som de um bandoneon. Mísia volta, aqui, a misturar fados clássicos com temas inéditos, que dão novos sentidos às palavras de Amália Rodrigues, Miguel Torga, Tiago Torres da Silva ou Vasco Graça Moura. Conta, ainda, com muitos amigos, como o músico napolitano Fabrizio Romano (também produtor do álbum), o artista argentino Melingo, o fadista Ricardo Ribeiro, o jovem guitarrista Gaspar Varela e o músico catalão Raul Refree, que tornam o fado algo ainda mais universal. M.J.