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"Love is Magic", de John Grant: A minha vida dava um disco

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Depois de três anos de ausência, o músico norte-americano John Grant está de regresso com Love is Magic, quarto trabalho em nome próprio, no qual se volta a reinventar enquanto artista, sem nunca deixar de ser quem é

"Love is Magic" é apresentado pelo próprio John Grant como “uma sucessão de snapshots do dia a dia”

"Love is Magic" é apresentado pelo próprio John Grant como “uma sucessão de snapshots do dia a dia”

Poucos músicos serão tão brutalmente autobiográficos na sua obra como John Grant. Desde o início da carreira a solo, em 2010, com o aclamado Queen of Denmark, um álbum de orquestrações grandiosas, no qual exorcizava um passado de viciado em álcool e drogas, que assim é. Aliás, na vida deste norte-americano, público e privado (con)fundem-se sob a forma arte, como quando anunciou ao público, durante um espetáculo, que era seropositivo ou quando, na ressaca de um desgosto amoroso, se mudou para a Islândia e compôs Pale Green Ghosts, o disco que lhe abriu os horizontes musicais para os encantos da pop eletrónica.

Há três anos, aquando da edição do aclamado Grey Tickles, Black Pressure, um álbum no qual as agruras da vida são transformadas numa festa eletropop, porque dançar é sempre melhor do que chorar, Grant parecia ter encontrado um novo rumo musical, bastando-lhe, para isso, seguir em frente. Mas este é um daqueles artistas que preferem sempre os caminhos mais longos, percorrendo-os com a bonomia de quem tem essa rara capacidade de, constantemente, se reinventar, numa contínua sucessão de personae musicais, como novamente acontece em Love is Magic. Apresentado pelo próprio como “uma sucessão de snapshots do dia a dia, uma miríade de humores e de todo o tipo de acontecimentos, horríveis e hilariantes, que resultam no absurdo e na beleza da vida”, o disco começa com o surpreendente Metamorphosis, um tema inspirado na morte da mãe, mas no qual se fala de tudo menos disso mesmo, numa letra aparentemente sem sentido, embalada por sintetizadores vintage. Logo aqui se percebe que a experiência nos Creep Show, o projeto que, no início do ano, juntou John Grant ao coletivo de eletrónica analógica Wrangler, deu frutos, na forma como um certo experimentalismo acaba por moldar todo o ambiente do disco.

Pelo meio, há também momentos mais dançáveis, capazes de animar qualquer festa, como He’s Got His Mother Hips, ou baladas a fazer lembrar discos mais antigos, como a assumida “canção de amor” Is He Strange, ou ainda a faixa que encerra o disco, Touch and Go, dedicada a Chelsea Manning, o antigo soldado norte-americano (e ativista da WikiLeaks) que mudou de sexo enquanto esteve preso – “Porque a compaixão é também uma forma de amor.”