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'Coisas Que Não Quero Saber', de Deborah Levy: Os interruptores da escrita

Livros e discos

No primeiro volume da sua autobiografia, a escritora britânica Deborah Levy, nascida na África do Sul, responde ao ensaio de George Orwell “Porque Escrevo”

A autobiografia Coisas Que não Quero Saber (Relógio d'Água, 104 págs., €16 euros) é o segundo livro 
de Deborah Levy publicado em Portugal, depois de Nadar para Casa, romance escrito quando a autora precisou de começar a refletir sobre o seu passado

A autobiografia Coisas Que não Quero Saber (Relógio d'Água, 104 págs., €16 euros) é o segundo livro 
de Deborah Levy publicado em Portugal, depois de Nadar para Casa, romance escrito quando a autora precisou de começar a refletir sobre o seu passado

Título e subtítulo são, neste livro, uma conjugação explosiva, matéria capaz de deixar o leitor em meditação, durante largas horas. De um lado, Coisas Que não Quero Saber; do outro, Uma Resposta ao Ensaio de George Orwell “Porque Escrevo”, de 1946. Numa ponta, a negação e a emoção; na outra, a afirmação e a racionalidade. A tensão, na verdade, nunca se resolve, e nesse jogo de forças reside a atração deste primeiro volume da autobiografia de Deborah Levy.
Porque Escrevo, de George Orwell, é um texto clássico que afirma, com uma enorme clareza, o que move um escritor. Das certezas precoces ao posicionamento ideológico, há pouco espaço para a dúvida. Apesar de um duelo interior, travado entre os 17 e 24 anos, época em que quis afastar a “vocação”, no percurso de Orwell há, sobretudo, conflitos exteriores, os que marcaram o século XX e que ele convocou para os seus livros. Em Levy, a expressão Porque Escrevo reclama forçosamente um ponto de interrogação. Perto dos 55 anos, no meio de uma crise pessoal de contornos difusos, exigiu também uma resposta.
O mais curioso neste diálogo é a vida da escritora, nascida em Joanesburgo, África do Sul, em 1959, encaixar, por ínvios caminhos, nos “quatro grandes motivos para se escrever”, definidos pelo autor de 1984. Levy conheceu as injustiças do mundo, quando o seu pai foi preso por se opor ao Apartheid (Impulso Histórico); sentiu na pele o combate desigual que homens e mulheres enfrentam ao longo da vida (Objetivo Político); soube encontrar um quarto, um café, uma ilha só para si nos momentos de desagregação familiar, já em Londres (Puro Egoísmo); e nunca deixou de viver à flor da pele e do papel as suas incertezas (Entusiasmo Estético). Em Palma de Maiorca, onde este livro ganhou forma, Deborah Levy é uma mulher em fuga no 
século XXI – mas ligada, em alta voltagem e admirável prosa, 
à corrente da escrita.