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"Anoitecer no Paraíso", de Lucia Berlin: Perto do coração selvagem

Livros e discos

Um segundo livro de contos confirma a escritora norte-americana como um dos ressuscitamentos mais notáveis da literatura do século XX

"Anoitecer no Paraíso" (Alfaguara, 278 págs., €18,70) é o segundo volume de contos de Berlin traduzido em Portugal, depois de "Manual para Mulheres de Limpeza" (2016), que foi celebrado pelo público e pela crítica

"Anoitecer no Paraíso" (Alfaguara, 278 págs., €18,70) é o segundo volume de contos de Berlin traduzido em Portugal, depois de "Manual para Mulheres de Limpeza" (2016), que foi celebrado pelo público e pela crítica

Lucia Berlin é um caso. Uma daquelas histórias que alimentam biografias arrebatadoras, ilustram os recantos sombrios do “sonho americano” e transformam-se em filmes “maiores do que a vida” (a Elizabeth Taylor dos tempos áureos vestiria bem a personagem; hoje, o seu excesso brilharia na camaleónica Cate Blanchett). A norte-americana nascida em 1936, no Alasca, foi uma desconhecida em vida no que respeita ao reconhecimento literário, ainda que tenha começado a publicar cedo, aos 24 anos, em revistas.

Era uma mulher livre e desafiadora de convenções, sempre on the road, sempre no fio da navalha, conduzida por paixões e pelo álcool, pela adrenalina das experiências, por três casamentos falhados, pelos ofícios de sobrevivência, por um gosto de viver – um coração selvagem, para roubar a expressão de Lispector.

Anoitecer no Paraíso, coletânea de 22 contos que se sucede à revelação Manual para Mulheres de Limpeza, supera as exigências do “segundo livro” e confirma um universo e um estilo narrativo particulares, cuja reverberação e os ecos biográficos tocam os leitores. A vida, aqui, pulsa com uma energia crua. A escrita é um staccato inclemente, despudorado, anguloso (com dois adjetivos pinta-se um cenário vívido). A autora não usa camuflagem, preferindo uma nudez emocional, alargada às suas personagens no confronto com a realidade, difícil mas sempre vivida segundo códigos próprios.

Esta reunião de histórias foi assegurada pelo filho Mark Berlin, o mais velho de quatro, que a caracteriza assim: “A Lucia, Deus a valha, era uma rebelde e uma artesã notável, e como dançou, nos seus tempos. Quem me dera poder contar todas as histórias, como quando ela deu boleia a Smokey Robinson na Central Avenue, em Albuquerque, a fumar uma ganza, enquanto se dirigiam para o concerto dele no Tiki-Kai Lounge.” Meninas de rua, mães de família, filhas, velhas, beldades, todas as mulheres de Lucia são desarmantes.