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"Vai e Vem", de Márcia: A sensualidade do desencontro

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Um regresso que reforça a certeza de que está aqui uma das mais talentosas escritoras de canções da atual música portuguesa. Vai Vem, o novo disco de Márcia, já está à venda

Márcia faz, mais do que música intimista, canções íntimas. Talvez porque nelas, em Márcia e na sua música, vida e arte se cruzem de tal forma que mal se sabe o que é uma coisa ou outra. Costuma chamar-se a isso talento, mas há aqui algo mais, uma sensibilidade para cantar o lado negro do amor, feito de perdas, abandonos ou simples desencontros, e torná-lo algo luminoso, fazendo quem a ouve seguir em frente, com a certeza de que, mais tarde ou mais cedo, de uma maneira ou de outra, tudo se vai compor. Segundo Márcia, “há um lado muito sensual nas histórias de amor inacabadas, que se mantêm vivas apesar de a vida continuar”.

A temática é recorrente desde que, em 2009, se estreou em nome próprio com um EP homónimo de apenas cinco temas, incluindo esse hino ao (des)amor chamado A Pele que Há em Mim, anos mais tarde transformado em êxito numa nova versão em dueto com JP Simões. Uma “resiliência no amor”, como gosta de lhe chamar, também presente no álbum de estreia, (2010), em Casulo (2013), Quarto Crescente (2015) e que agora volta a cantar neste novo Vai e Vem, um disco de plena afirmação de uma das mais talentosas escritoras de canções, surgida nestes últimos anos na música portuguesa.

Segundo a própria, trata-se tão-só da “conquista de um espaço”, assumido, por exemplo, na segurança da interpretação, agora muito mais livre e solta, de temas como Corredor, Manilha, Mil Anos ou Agora; nos duetos tão sentimentalmente diferentes com os “amigos” António Zambujo, Samuel Úria e Salvador Sobral, em, respetivamente, Vai e Vem, Emudeci e Pega em Mim; no modo como cada canção se torna tão visual (o quarto de Amor Conforme ou a viagem de carro de Ao Chegar), mas especialmente na forma como Márcia parece continuar a cantar apenas para cada um de nós.

Todas as 12 canções de Vai e Vem têm a assinatura de Márcia, mas três delas são interpretadas em dueto − com António Zambujo, Samuel Úria e Salvador Sobral