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Leonard Bernstein: Além de americano, único

Livros e discos

Temas filosóficos, música popular, uma energia sem fim: celebre-se o centenário do nascimento de Bernstein, um maestro inconfundivelmente americano, com o disco Leonard Bernstein, the 3 Symphonies, com direção de Antonio Pappano

Getty Images

Se há gente com memória na televisão portuguesa, talvez seja altura de desenterrar os programas que Leonard Bernstein (1918-1990) fez com a Orquestra Filarmónica de Nova Iorque, entre os anos 50 e 60. Esses programas não foram apenas uma tentativa pioneira de explicar música clássica a um público leigo. Ainda hoje deve ser difícil ultrapassá-los em termos de eficácia comunicativa. E isso tem tudo que ver com o seu autor.

Figura mais importante da música clássica americana na segunda metade do séc. XX, Bernstein era uma personagem “larger-than-life”, com um estilo físico único no pódio, um espetro musical muito amplo e uma energia praticamente inesgotável. A sua atividade principal de maestro deixava a de compositor um pouco na sombra, mas o seu ecletismo era notório também aí. Desde composições eruditas de recorte tradicional até obras de teatro musical escritas para a Broadway, tudo cabia na sua agenda, desde que fosse tonal (os caminhos da vanguarda eram uma coisa diferente, nos quais ele não se metia). A sua obra mais famosa é, evidentemente, o musical West Side Story, que data de 1957 e foi depois adaptado ao cinema. Nessa altura, ele já tinha escrito outros musicais e duas das três sinfonias reunidas neste duplo CD: a primeira, cujo último andamento inclui extratos do Livro de Jeremias, e a segunda, inspirada por um poema de W. H. Auden. Ambas tratam temas “grandes”, o que era típico de Bernstein nesse género de obra. Na terceira sinfonia, talvez a mais comovente, o texto vem do Kaddish, o lamento judeu pelos mortos, e o objetivo foi homenagear o (então recentemente) assassinado Presidente John F. Kennedy.

A versão impecável do maestro António Pappano, feita com uma orquestra à qual Bernstein teve uma associação próxima, conta com as colaborações da mezzo-soprano Marie-Nicole Lemieux (na sinfonia nº 1), da pianista Beatrice Rana (na nº 2) e da soprano Josephine Barstow (na nº 3), que aqui aparece como recitadora em toda a glória dos seus 77 anos. Para quem preferir o Bernstein dos musicais, a recomendação é a gravação da opereta Candide (a partir da obra homónima de Voltaire), dirigida pelo próprio Bernstein em 1988 e agora relançada pela Deutsche Grammophon com um DVD a acompanhar. Comédia, sátira, vivacidade e introspeção, tudo servido com um brilhantismo que talvez o próprio Voltaire apreciasse.

As três sinfonias de Leonard Bernstein, tocadas por uma orquestra que ele conhecia bem, a da Accademia Nazionale di Santa Cecilia, dirigida pelo maestro anglo-italiano Antonio Pappano. Este duplo CD tem a marca da Warner Classics.