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Em "God’s Favorite Customer", Father John Misty é um trovador atormentado

Livros e discos

Já sabíamos que Josh Tillman é um dos mais talentosos letristas da sua geração, mas ele nunca nos tinha escrito de forma tão verdadeira – e sofrida

Vânia Maia

Vânia Maia

Jornalista

O sucessor 
do álbum Pure Comedy (2017) foi escrito ao longo de apenas dois meses, durante um período particularmente infeliz, em que o músico viveu num quarto 
de hotel, em Nova Iorque

O sucessor 
do álbum Pure Comedy (2017) foi escrito ao longo de apenas dois meses, durante um período particularmente infeliz, em que o músico viveu num quarto 
de hotel, em Nova Iorque

A expressão “escritor de canções” dificilmente poderia assentar melhor a Father John Misty, alter-ego do músico Josh Tillman, que conhecemos nos Fleet Foxes (e ainda nos custa imaginar que o seu talento poderia ter ficado escondido atrás da bateria da banda norte- -americana). As letras são o que de mais original ele oferece aos seus temas, impregnados de influências da folk e do rock da década de 70 – a espaços, trazem-nos à memória John Lennon.

Ao quarto disco enquanto Father John Misty, o cantautor de Maryland mostra que tem muito mais para dar, além do seu carisma e do seu sensual menear de anca. Quem o viu no festival NOS Primavera Sound, no Porto, testemunhou que o que se perdeu em teatralidade nas suas atuações (em tempos, chegaram a incluir soutiens atirados para o palco) transformou-se em real comunhão de sentimentos. Em God’s Favorite Customer, as luxuosas suítes de hotel não são símbolo de glamour ou de liberdade, mas de desenraizamento e de dissociação da realidade. Em Mr. Tillman (uma das melhores canções do disco), o rececionista do hotel é obrigado a garantir-lhe que os outros hóspedes não são figurantes de um filme... É costume dizer-se que se deve escrever sobre o que se conhece e, desta vez, Josh Tillman decidiu fazer isso mesmo, sem artifícios. Depois de ouvirmos o disco, ficamos com a sensação de que o músico de 37 anos se conhece, agora, demasiado bem, mas essa autodescoberta não lhe garante a salvação. Demonstra, isso sim, que o cínico está a livrar-se do medo de mostrar vulnerabilidade. Felizmente, continua longe de perder o mordaz sentido de humor (evidente quando canta em tom autodepreciativo no tema The Palace: “Last night I wrote a poem / Man, I must’ve been in the poem zone”). Desta vez (como acontece amiúde), o amor correu mal, mas faz questão de nos dizer, em Disappointing Diamonds are the Rarest of Them All, que um amor que dura para sempre não pode ser assim tão especial... Josh Tillman está mais sábio. Sabe, por exemplo, que nem sempre a redenção chega, como o diz no título da derradeira canção do álbum, We're Only People (And There's Not Much Anyone Can do About That). É isso: somos só pessoas.

Veja o vídeo de Mr. Tillman