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As pérolas dispersas de "Inéditos 1967-1999", de José Mário Branco

Livros e discos

Um disco que, tendo algo de arqueológico, nos permite olhar para todas as dimensões presentes do músico

D.R.

Seria mais exato ler na austera capa deste disco “inéditos e raridades”. Porque, na verdade, algumas destas 26 faixas já antes tinham sido gravadas em discos − mas aí ficaram, esquecidas ou demasiado bem arrumadas em arquivos mais ou menos moribundos. Nada que retire força a este duplo CD e às suas revelações.

Não se ouve como uma antologia (que tecnicamente é), mas sim com o lampejo próprio das descobertas e novidades. Sublinhe-se a variedade de registos num disco que, talvez como nenhum outro de José Mário Branco, nos dá as dimensões diversas do seu autor. Absolutamente popular como na marcha São João do Porto (retirado do single Qual É a Tua, ó Meu?), pop como nesse Fim de Verão (À Maneira d'Os Conchas), cantado por Manuel João Vieira e com a colaboração dos Ena Pá 2000 (gravado para a banda sonora do filme Agosto, de Jorge Silva Melo), erudito como nos três andamentos da Fantaisie Languedocienne, político da ação direta em Mãos ao Ar! ou Quantos É que Nós Somos (editado num álbum de homenagem a Otelo Saraiva de Carvalho), estudioso da História e tradições como nas sete Cantigas de Amigo musicadas, aberto aos sons do mundo como no bolero Alma Herida...

Mais uma vez, aqui temos − recuperando palavras desse irrepetível e histórico relâmpago chamado FMI − José Mário Branco “muito mais vivo que morto”. E a sua voz cava, património maior da nossa música popular, podia acrescentar mais uma vez: “Contai com isto de mim para cantar e para o resto.”