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Arctic Monkeys: o novo disco é uma crise de identidade?

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Sem riffs de guitarra, mas com o mesmo sentido de observação,"Tranquility Base Hotel & Casino", o sexto álbum da banda tem tudo para dividir opiniões. E ainda bem

D.R.

D.R.

Alex Turner podia ter feito um álbum a solo e seria mais ou menos a mesma coisa. Doze anos depois de o ouvirmos cantar sobre porteiros de discoteca mal-encarados ou a falta de romance da música feita para toque de telemóvel, o vocalista dos Arctic Monkeys não podia estar mais longe das ruas de Sheffield, Inglaterra, onde a banda cresceu. Viver na artificialidade de Los Angeles tem destas coisas, e nem a última das bandas indie, como escreveu The Guardian, podia ficar igual para sempre. Mas era preciso querer chegar à Lua?

“A guitarra perdeu a capacidade de me inspirar”, disse Turner numa entrevista à BBC. É ele, como sempre, o homem de todas as palavras e ideias, quem desta vez decidiu pôr em prática ao piano, presente de aniversário que recebeu aos 30, e que passou os dois anos seguintes a explorar. Na verdade, há muito que os Arctic Monkeys procuravam evoluir sem perder a crueza dos primeiros dois álbuns, conseguindo com AM, de 2013, uma mistura entre as letras irrepreensíveis de Turner e guitarras de encher estádios. A mudança de direção que é Tranquility Base Hotel & Casino não será exatamente uma surpresa: quem tem estado atento aos Last Shadow Puppets, banda que Turner divide com o amigo Miles Kane, já tinha percebido que havia por ali um fascínio pelos anos 70, a languidez de Serge Gainsbourg com uns laivos de David Bowie, os fatos impecáveis e o cabelo escorregadio. Four Out of Five, o candidato mais natural a single, num disco feito para não os ter, tem um vídeo a dar ares de Stanley Kubrick, todo ele surrealismo e cores fortes. Não é coincidência que Turner encaixe neste cenário egomaníaco na perfeição – mas um pouco de megalomania nunca fez mal a ninguém.