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"O Homem do Leme", de Manuel Halpern: Mais do que uma onda

Livros e discos

Crónicas escritas ao longo de 20 anos, com vista para o mundo da internet (ou seja: sobre tudo), conquistam, em livro, o direito a uma vida mais longa

José Carlos Carvalho

Como o autor sublinhou, na apresentação deste volume de crónicas, o título genérico O Homem do Leme tanto evoca ecos poderosos da nossa literatura clássica − o Adamastor d'Os Lusíadas; o Mostrengo de Pessoa − como nos transporta para a voz de Tim, dos Xutos & Pontapés, cantando uma das suas canções mais... clássicas. Mistura de universos que faz todo o sentido no percurso do jornalista Manuel Halpern, na redação do Jornal de Letras, Artes e Ideias (JL), desde 1998.

Na introdução (Aviso à Navegação) conta que, quando aí chegou, teve a ousadia de propor escrever sobre música pop e uma coisa ainda meio exótica e hi-tech chamada internet. Às duas propostas, o seu editor, José Manuel Rodrigues da Silva (“Com quem aprendi o que não se ensina”, lê-se na dedicatória), respondeu: “Escreve sobre o que quiseres, desde que não me obrigues a ouvir” e “se estiver pronta antes das outras coisas, é mais provável que vá para a frente”. Deve ter estado sempre pronta a tempo e horas, porque bem pode dizer-se que foi mesmo “para a frente”. Para esta recolha, o autor reviu mais de 500 crónicas escritas para o JL e fez uma seleção que (des)arrumou em quatro secções: Ficções, Fricções, Referências e Minudências.

A antologia "O Homem do Leme" (Rosa de Porcelana, 352 págs., €15) tende muitas vezes para 
o universo da ficção e faz pensar na célebre frase de Manuel António Pina sobre as crónicas: esse “jornalismo com saudades da literatura e literatura com remorsos de ser jornalismo”

A antologia "O Homem do Leme" (Rosa de Porcelana, 352 págs., €15) tende muitas vezes para 
o universo da ficção e faz pensar na célebre frase de Manuel António Pina sobre as crónicas: esse “jornalismo com saudades da literatura e literatura com remorsos de ser jornalismo”

Nascido em 1974, Manuel Halpern (que, nestas páginas da VISÃO Se7e, escreve assiduamente sobre cinema e música) pertence à geração que cresceu num mundo pré-digital mas que foi bem a tempo de se familiarizar completamente com a revolução informática e o poder esmagador da internet. Uma geração, afinal, que ao leme de qualquer embarcação está numa posição privilegiada para observar, refletir e relativizar. A crónica Memórias do Presente é disso um bom exemplo. Aí, recorda o tempo em que todas as nossas fotografias eram impressas e preciosas, por oposição ao atual “inavegável oceano de imagens, em que é difícil mantermo-nos à tona, quanto mais encontrar o que quer que seja”. Também por isso é bom ter estas crónicas, bem guardadinhas entre capa e contracapa, a navegarem em direção ao futuro.