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'American Utopia', de David Byrne: O otimismo é possível?

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A leitura de Tocqueville inspirou a David Byrne, ex-Talking Heads, um disco enérgico, pop e irresistível. American Utopia chega esta sexta, 9, às lojas

Nas dez novas canções de American Utopia (Nonesuch/Warner), David Byrne consegue misturar o seu registo clássico e inconfundível com um sentido visionário e absolutamente contemporâneo. O músico toca em Cascais a 11 de julho

Nas dez novas canções de American Utopia (Nonesuch/Warner), David Byrne consegue misturar o seu registo clássico e inconfundível com um sentido visionário e absolutamente contemporâneo. O músico toca em Cascais a 11 de julho

Há muito que não nos chegava às mãos um disco novo simplesmente assinado com o poderoso nome de David Byrne. Houve a colaboração com St. Vincent (Love This Giant, em 2012), o surpreendente musical dedicado a Imelda Marcos, numa colaboração com Fatboy Slim (Here Lies Love, de 2010), e o disco a meias com o velho cúmplice Brian Eno (Everything That Happens Will Happen Today, de 2008). Para encontrar um disco seu a solo é preciso recuar a 2004 e a Grown Backwards. Muito mudou. Basta dizer, por exemplo, que George W. Bush era o Presidente dos EUA e que faltavam ainda cinco anos para a chegada ao poder de Barack Obama...

O título deste novo disco é daqueles que nos fazem ouvir todas as canções com um olhar condicionado, enviesado. Em tempos de Trump, falar de “utopia americana” promete fazer de cada cantiga uma arma. Não é bem isso que acontece aqui, pelo menos não no sentido mais literal. American Utopia é um disco cheio de boas energias, assinado por um entusiasta da música pop, nascido na Escócia há 65 anos (mas habitante nos EUA desde criança). As suas raízes estão no momento em que, durante uma digressão, resolveu ler um clássico da ciência política que continua a ecoar em muitos trabalhos, tanto no mundo da arte como no do pensamento: Da Democracia na América, de Alexis de Tocqueville, publicado em 1835. O disco parece integrar-se num projeto maior que tem ocupado David Byrne: elencar razões para estarmos otimistas com o mundo, mesmo que isso pareça uma espécie de “road to nowhere” ou uma viagem em contramão.

Há em American Utopia uma frescura e energia notáveis aos 65 anos (para as quais contribuem, certamente, a colaboração do londrino Sampha e a produção de Rodaidh McDonald, nome inseparável do percurso dos The XX) e canções com um balanço irresistível a fazerem lembrar Byrne no seu melhor, incluindo o da fase dos Talking Heads (que editaram o último disco em 1988). Um regresso que nos faz bem.