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'Comer/Beber', de Filipe Melo e Juan Cavia: Vícios e virtudes

Livros e discos

Champanhe e tarte de maçã são ingredientes poderosos em Comer/Beber, banda desenhada de Filipe Melo e Juan Cavia. Sirva-se sem cerimónia

Juan Cavia e Filipe Melo, a dupla criativa que já nos ofereceu a novela gráfica 'Os Vampiros' e a trilogia fantástica 'Dog Mendonça e Pizzaboy'

Juan Cavia e Filipe Melo, a dupla criativa que já nos ofereceu a novela gráfica 'Os Vampiros' e a trilogia fantástica 'Dog Mendonça e Pizzaboy'

D.R.

Sente-se à mesa. Abra este livro que cabe num bolso espaçoso. A ementa é ilusoriamente simples, dividida em dois capítulos: história inspirada em acontecimentos reais e ficção pura. Ambas têm ingredientes singulares, cores bem apuradas, memórias e sabores fortes, e, como qualquer refeição inesquecível, um travo agridoce que perdura.

Siga-se a ordem cronológica: o primeiro conto, Majowski, é baseado numa história real, narrada no diário pessoal de Beatrice Schilling, mãe de Nádia Schilling (coautora do guião com o amigo, Filipe Melo). Esse episódio sobe pela árvore genealógica da família até chegar ao bisavô de Nádia: “A minha avó contava-me que, no dia em que a Alemanha ocupou a Polónia, o avô foi buscar a melhor garrafa de champanhe que tinha no seu restaurante e correu a escondê-la, num recanto que só ele sabia. Ninguém era capaz de imaginar, nessa altura, que algo pudesse correr mal.” E nos desenhos meticulosos de Juan Cavia, cheios de subentendidos e jogos de luzes, reencontramos esse bisavô Franciszek que assim tentou afrontar os nazis que se gabavam dos feitos à frente do seu nariz e sobreviver à Segunda Guerra Mundial, cruzando-se com personagens como Marlene Dietrich por entre mesas cheias, iluminadas a candelabros.

Ainda com este belo relato nas mãos, lemos Sleepwalk, uma ficção desta dupla criativa que já nos ofereceu a novela gráfica Os Vampiros (2016) e a trilogia fantástica Dog Mendonça e Pizzaboy (2009-2013). Não há esteio verídico nesta segunda banda desenhada, mas a América profunda dos anos 1980, aqui imaginada com planos e tensão cinematográficos, insinuando uma paisagem latente de tensões raciais, onde as estradas são desérticas como certos destinos e uma tarte de maçã é a promessa do único paraíso redentor, parece aquela que identificamos como realidade.

Divulgacao

Comer/Beber (Tinta da China, 64 págs., €15) começou por ser uma encomenda para a revista Granta 9, dedicada precisamente a esse tema, aí tendo sido publicada apenas a história de Comer