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Os 7 melhores livros de 2017

Livros e discos

Na voragem de títulos lançados em 12 meses, há alguns que marcaram os nossos dias. Exemplares escolhidos com pinças para o Olimpo do ano editorial que passou. Descubra quais são os sete melhores livros de 2017, seleção VISÃO Se7e

HOJE ESTARÁS COMIGO NO PARAÍSO, de 
Bruno Vieira 
Amaral

Uma tour de force, a deste romance identitário, que superou as expectativas do segundo romance, essa pseudo-maldição que acossa escritores com estreia fulgurante, como foi o caso de As Primeiras Coisas (2013), de Bruno Vieira do Amaral. O autor aplicou a sua escrita, seguríssima, tão evocativa como crua, rica de apontamentos quotidianos e sem exibicionismos, para provar que é capaz de altos voos, a uma história do álbum biográfico: o assassínio do primo João Jorge, 21 anos, em fevereiro de 1985. Tragédia convertida em investigação existencial e peregrinação literária, tanto aos territórios suburbanos como à memória e aos afetos.
 Quetzal > 363 págs. 
> €17,70

ATÉ QUE AS PEDRAS SE TORNEM MAIS LEVES QUE A ÁGUA, de António Lobo Antunes

Um alferes regressa da Guerra do Ultramar com uma criança órfã, um rapazinho negro que é adotado como filho, e que será também memória viva do sangrento conflito, já que o soldado lhe matou os pais biológicos. Quatro décadas depois, uma festa de matança de porco na aldeia da família portuguesa puxa os fios soltos desta tragédia à espera de conclusão ou redenção. À VISÃO, Ana Paula Arnaut, especialista da obra do autor, defendeu que é a primeira vez que Lobo Antunes “escreve um romance inteiramente 
sobre a 
Guerra Colonial”, tema fulcral na sua obra, e que este volume confirma “um novo ciclo na produção literária antuniana”. Dom Quixote > 
456 págs. > €20,90

HOMO DEUS 
– HISTÓRIA BREVE DO AMANHÃ, de 
Yuval Harari

Não é preciso ler Sapiens – História Breve da Humanidade, a extraordinária análise da evolução humana escrita pelo historiador israelita, para compreender Homo Deus. Aqui, Harari disseca o nosso futuro, defendendo que será negro. 
Há uma mudança de paradigma 
que revê 
o mito de Prometeu: os homens tentarão ser deuses, através da engenharia genética, da Inteligência Artificial, e de outras ferramentas tecnológicas de difícil controlo. Questões novas, antes impensáveis, colocar-se-
-ão, como a da conversão de organismos em dados e algoritmos, e a da inteligência superior destes face aos 
seus criadores.
 Elsinore > 478 págs. 
> €21,98

A ESTRANHA ORDEM DAS COISAS, de António Damásio

Dotado com o subtítulo A Vida, os Sentimentos e as Culturas Humanas, este volume ecoa as questões de Yuval Harari, já que também aborda a humanidade confrontada pela tecnologia. 
O neurocientista António Damásio responde a esta e a outras questões sobre a condição humana e a consciência, partindo de uma premissa: a de que os sentimentos ainda não foram reconhecidos como motores da cultura humana. E interroga-se se a imortalidade, perseguida pelos avanços tecnológicos, “eliminaria o mais poderoso motor da homeostasia impulsionada pelos sentimentos: a descoberta da inevitabilidade da morte”. E se suprimir outros motores, como o prazer, não criaria um “universo zombificado”. 
Temas e Debates > 384 págs. > €21,90

O MINISTÉRIO DA FELICIDADE SUPREMA, de 
Arundhati Roy


A autora dedicou este belo livro aos Desconsolados, assim mesmo, com maiúscula. E esse é o território deste romance complexo, colorido, tridimensional, recheado de personagens inesquecíveis que poderiam ser protagonistas por direito próprio de outros livros. Arundhati Roy é uma escritora militante para quem a literatura será sempre mais do que contar boas histórias, antes preferindo oferecer uma narrativa encharcada em humanismo e denúncia. E isto não só porque as grandes questões políticas e históricas da Índia, sobretudo o conflito em torno de Caxemira, estão aqui muito presentes, mas também porque as suas figuras ficcionais, sobretudo as femininas, são exemplos de luta e resistência − contra as injustiças e preconceitos de classe, de género, de cultura. A condição humana no cenário de Nova Deli, em suma. Mas, apesar da existência de muitas vozes que se querem fazer ouvir, duas destacam-
-se da multidão: a de Anjum, que nasce Hijra, o termo urdu para a bebé que não era nem masculina nem feminina, e que viverá os primeiros anos no palácio protegido da Khwabgah, e os seguintes num cemitério, “como uma árvore”, resistindo a tudo; e a de Tilo, 
arquiteta que, por amor a um rebelde, acabará refugiada nessas mesmas campas. Em redor, musas, vítimas, pássaros e velhos sábios, a violência e beleza do mundo narrado ao longo de 50 anos, até hoje. Um regresso triunfal para Roy, 20 anos passados sobre a estreia com O Deus das Pequenas Coisas (prémio Booker 1997). ASA > 464 págs. > €19,90 


LINCOLN NO BARDO, de George Saunders

Vencedor do prémio Man Booker 2017, este é um daqueles livros que não precisam do beneplácito de um galardão para serem ouvidos, nem são importações sobrevalorizadas. Primeiro romance deste autor americano, Lincoln no Bardo é uma experiência − no sentido em que há poucas obras escritas assim, e em que poucos leitores emergem incólumes e indiferentes das suas páginas. O título remete para um conceito tibetano: “bardo” é o estado intermédio entre morte e renascimento. É onde está Willie, filho de um inconsolável Presidente Abraham Lincoln, que faz visitas noturnas à campa (facto verdadeiro) no cemitério Oak Hill. Aí, um coro de espíritos tem as suas próprias histórias para contar nesta tapeçaria narrativa.
 Relógio D'Água > 
368 págs. > €19

POESIA, de Mário Cesariny

Poucos poetas portugueses terão experimentado tão livremente a palavra, iluminada por uma incandescência que não obedecia a gavetas arrumadoras 
− lembrem-se 
“ó literatos”, para citar o próprio em Raio de Luz quando invetiva que “burgueses somos nós todos”. Este volume celebratório constituiu a primeira reunião de toda a obra de Cesariny, razão bastante para constar nesta lista. Edição anotada e não crítica, chama--lhe Perfecto E. Cuadrado, amigo de sempre do poeta, especialista em surrealismo, responsável pela edição, prefácio e notas. De fora (prometidos para outros tomos), ficaram picto-
-poemas, produção dramática, e o incomparável e inclassificável texto Titânia. Mas está lá tudo o que é poesia dele. 
E nossa. 
Assírio & Alvim 
> 776 págs. > €44