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'O Teu Rosto Amanhã I, II, III', de Javier Marías: O dom da futurologia

Livros e discos

Oito anos de escrita, mais de 1300 páginas. O Teu Rosto Amanhã, o romance monumental do espanhol Javier Marías é, finalmente, publicado por inteiro em português

Juan Carlos Hidalgo

A arte de contar é o epicentro deste romance dividido em três volumes, forte abalo narrativo numa escala literária de Richter. Esta arte de contar, que é simultaneamente investigação, reflexão, confissão, encontra-se tanto no autor como no seu narrador: Jaime/ Jacobo/Jacques Deza, protagonista de O Teu Rosto Amanhã, tem um dom cobiçado e temido, o de leitor de consciências, adivinhador de futuros que sabe quais rugas marcarão os traços de cada um. Um talento sobrenatural que lhe valerá ser contratado por um grupo associado aos serviços secretos britânicos, empreendendo uma sombria viagem pelos impulsos humanos, manifestados em intimidade ou na guerra civil. No último volume, a leitura de rostos revelar-se-á no espelho do próprio Deza.

Javier Marías é um escritor exigente com os seus leitores, mas, em troca, oferece uma prosa rica e distendida, mais dedicada aos meandros emocionais do que à ação. Leia-se o primeiro parágrafo do segundo volume: “Oxalá nunca ninguém nos pedisse nada, nem sequer nos perguntasse, nenhum conselho nem favor nem empréstimo, nem sequer o da atenção, oxalá os outros não nos pedissem que os ouvíssemos, os seus problemas míseros e os seus penosos conflitos tão idênticos aos nossos, as suas incompreensíveis dúvidas e as suas singelas histórias tantas vezes alteradas e já sempre escritas (não é muito vasta a gama do que se pode tentar contar), ou aquilo a que antigamente se chamavam coitas, quem as não tem ou não as procura, 'a infelicidade inventa-se', cito amiudadas vezes para mim, e é uma citação verdadeira quando são desditas que não vêm de fora e não são desditas objetivamente inevitáveis, não uma catástrofe, não um acidente, uma morte, uma falência, um despedimento, uma praga, uma fome ou a perseguição encarniçada de quem não fez nada, destas está cheia a História e também a nossa, quero dizer estes nossos tempos inacabados (e até há despedimentos e falências e mortes que são procurados ou merecidos ou que se inventam).” Condição humana, literatura, está tudo aqui.

Uma trilogia que é um único romance, O Teu Rosto Amanhã (Alfaguara): volume I Febre e Lança (416 págs., €20,50); volume II Dança e Sonho (360 págs., €20,50); volume III Veneno e Sombra e Adeus (552 págs., €24,90)