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'Sonates & Trio', de Claude Debussy: A modernidade a abrir

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Um disco revelador de uma obra que, pouco mais de um século depois, mantém a frescura e ainda soa emancipadora. Eis Sonates & Trio, de Claude Debussy

Luís M. Faria

Cem anos após a morte de Claude Debussy (o aniversário é em março), a música do compositor soa emancipadora a muitos ouvintes de música clássica

Cem anos após a morte de Claude Debussy (o aniversário é em março), a música do compositor soa emancipadora a muitos ouvintes de música clássica

“Músico francês”, assim se autodesignou Claude Debussy (1862-1918) após o início da Primeira Guerra Mundial. A designação não tinha só a ver com patriotismo, no sentido convencional. A música de Debussy é inconfundivelmente francesa: feita de cores suaves e variadas, de harmonias ricas que transfiguram modos arcaicos ou exóticos, de texturas mutáveis, de frases nunca demasiado enfatizadas, de jogos de timbre infinitamente subtis, consegue ser profunda sem ser pesada, ao contrário da música alemã. Esta, ele conhecia-a bem; foi várias vezes a Bayreuth, e era capaz de tocar de cor ao piano o Tristão. Mas libertou-se através de outras influências: Chabrier, a música russa e oriental, compositores franceses do século XVII (Rameau, Couperin)… Não menos importantes foram os escritores e pintores do seu tempo. Poetas como Mallarmé e pintores como Monet ajudaram a criar uma estética particular que ainda hoje, cem anos após a morte do compositor (o aniversário é em março), soa emancipadora a muitos ouvintes de música clássica. Debussy é a modernidade a abrir.

Das obras reunidas em Sonates & Trio, três são sonatas. Compostas entre 1915 e 1917, seguiram-se a um hiato criativo. Fazem parte do que devia ter sido um grupo de seis para diversas combinações de instrumentos, não tivesse a morte intervindo. Uma delas, a sonata para flauta, viola e harpa, é uma obra-prima. Deu origem a muitas outras escritas para a mesma formação, e a todos os grupos que ainda hoje a usam. Os três instrumentos combinam-se num tecido sonoro e emocional refinado. As outras duas sonatas, igualmente inspiradas, são para violino e piano e para violoncelo e piano. No presente CD, onde ouvimos alguns proeminentes intérpretes franceses da atualidade, surge ainda a peça Syrinx, para flauta solo, e um trio com piano composto na juventude, quando Debussy esteve ao serviço de Madame Von Meck, a célebre baronesa russa que foi mecenas de Tchaikovsky e outros artistas.

Alguns dos melhores intérpretes franceses da atualidade − Capuçon, Chamayou, Caussé, Pahud, Langlamet e Moreau − dão corpo às últimas obras de Claude Debussy neste Sonates & Trio