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'A Sibila', de Agustina Bessa-Luís: Mulheres do Norte

Livros e discos

Com um livro icónico, A Sibila, começa um novo ciclo para o vasto espólio literário agustiniano, agora abrigado e bem cuidado na editora Relógio D'Água

Lucília Monteiro

Há livros inesquecíveis? Uma mão-cheia. Há romances capazes de provocar uma rutura no cânone? Poucos. Há personagens com gravitas suficiente para criar descendência literária? Alguns. E Agustina Bessa-Luís atingiu, ao correr de escrita ornamentada, implacável e ferozmente inteligente, todos estes feitos em A Sibila, um dos seus primeiros romances. História de mulheres encurraladas perante pequenos ou patriarcais poderes rodeadores, que vivem, à sua maneira, mudanças sísmicas como as da transição da ruralidade protegida em que nasceram para a sociedade burguesa, despachada, bem falante e surda face ao património – de pedra ou de espírito.

Um incêndio na propriedade dos Teixeira, a Vessada, marca os tempos do livro – fronteira, purificação e metáfora. No início, na varanda da casa, Germa recorda. Ela deseja “salvar o passado”, antes transmitido nas vozes sábias de Maria e da filha Quina, que possuía “a virtude de ser frívola apenas com as coisas frívolas, e, o que era mais, compreender exatamente onde havia, de facto, frivolidade”. Agustina transforma-a na sibila, pitonisa ligada aos poderes ancestrais. A sobrinha Germana, Germa, “criatura paciente, tímida”, resultante de “um tipo fatídico das degenerescências, o artista, o produto mais gratuito da natureza e que se pode definir como uma inutilidade imediata”, é a herdeira de Quina. E aceitará, finalmente, ser uma outra sibila.

Passados 63 anos, este romance mantém intactos poder e fascínio. Narrativa precursora do discurso feminino – e literário –, recria um mundo fechado, emergido a meio do século XX, que vive a vida como um bordado: intenso, intrincado, íntimo, distante do largo pano de fundo global que enfrenta, por exemplo, o advento da República ou a primeira guerra mundial. Gonçalo M. Tavares prefacia esta nova edição com belíssima capa, um fragmento do quadro A Lavadeira, de Toulouse-Lautrec, recordando o olhar cáustico, o humor, a frase definitiva, a glória de Agustina. É tempo de a ela regressar.

A Sibila (Relógio D'Água, 268 págs., €17), romance de 1954, logo premiado, foi referido assim por Eduardo Lourenço: “Mas este mundo romanesco, pelo seu simples aparecimento, deslocou o centro da atenção literária”