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'Dias Úteis', de Patrícia Portela: Preces desatendidas

Livros e discos

Um novo livro, marcante, de uma escritora dotada, capaz de subverter e reinventar a grande “máquina do mundo”. Dias Úteis, de Patrícia Portela, já está à venda nas livrarias

Patrícia Portela escreve sobre morte, amor, identidade, refugiados, perda, o planeta, sonhos, de forma verdadeiramente original

Patrícia Portela escreve sobre morte, amor, identidade, refugiados, perda, o planeta, sonhos, de forma verdadeiramente original

João Ribeiro

Se deuses houve que criaram o mundo em seis dias, descansando ao sétimo, Patrícia Portela, prestidigitadora de criações performáticas como o espetáculo Trilogia Flatland ou o livro-de-materiais-diversos A Coleção Privada de Acácio Nobre, pode agora reclamar-se demiurga de uma semana admirável. Dias Úteis arruma-se como um livro de contos, com particularidades, confessionalidades e teatralidades. 
A escrita revela a bagagem filosófica, as truncagens inesperadas, e os artifícios imaginativos com que a autora nos atira para outras dimensões. Mas, aqui, a carga emocional venceu a “boa ideia inicial”, e as vozes das personagens (sempre na primeira pessoa) comovem-nos além das aporias, alegorias e metáforas com que enfrentam o mundo, absurdo e beckettiano.

Escreve-se sobre morte, amor, identidade, refugiados, perda, o planeta, sonhos – de forma verdadeiramente original. Há dispositivos teatrais ao serviço da narrativa, como a sincera didascália, indicações dadas pelo livro para a sua leitura, pedindo entrega, afogamento ou óculos escuros “sempre à mão”. “O regresso à realidade é sempre um choque demasiado iluminado (...).” Antes, no Prefácio Fora de Jogo, há uma tour de force, um texto antológico, épico e hilário, com Big Bang e santíssima trindade disparados à maneira de um relato de futebol: o Jogo da vida acontece a todos, não se sabe quando nem como.

Espreite-se a semana. Segunda-feira, conhecemos Alice Winston Smith, devedora do Winston criado por George Orwell em 1984, desesperada e conformada: “Anima-me fingir que viver é só uma transição para uma outra apoteose qualquer.” Em Quarta-feira, impressiona-nos o retrato visual poderoso em torno de uma falhada partida de casa, o corpo desmaterializado como um quadro surrealista. Quinta-feira é uma estafeta surreal, alusiva aos que perderam casa e país: tudo começa com um pedaço de terra arrancado que vai sendo trocado por minerais, materiais e equívocos, pelo mundo. Sexta-feira é dia de luto: “Procuramos o lugar exato de onde vem a razão ignorando que a lógica nunca evitará a dor. Fazemos sentido porque podemos cair, não porque poderemos voar.” É o “beijo de Judas”, avisa ela...

Dias Úteis (Caminho, 112 págs., €12,90) segue uma lógica temporal reconhecível, cada capítulo correspondendo a um dia da semana, mas a previsibilidade é torpedeada por Patrícia Portela com fugas filosóficas e marcações teatrais.