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12 livros para o Dia Mundial da Criança

Livros e discos

É um dois-em-um, esta quinta-feira, 1, em que se celebra o Dia Mundial da Criança e começa a Feira do Livro de Lisboa. Deixamos-lhe 12 sugestões de novas histórias para os mais novos, que envolvem nuvens, um tio à maneira de Monsieur Hulot, zurrapas e muita massa cinzenta

1. Cá Dentro

Depois de Lá Fora, um livro que nos convidava a embrenhar-nos na natureza, a Planeta Tangerina edita Cá Dentro, um guia para descobrirmos o nosso cérebro, aconselhado a leitores a partir dos dez anos. Comecemos pelas ilustrações, sempre tão fundamentais nos livros da editora: Madalena Matoso escolheu apenas três cores (azul, vermelho e preto) para fazerem contraste com as páginas brancas, em desenhos que não só ilustram os textos, como também nos abrem ainda mais a cabeça sobre aquilo que vamos lendo ao longo deste pesado volume. “Construído com o apoio de uma equipa de neurocientistas, filósofos e psicólogos”, sublinha a editora, Cá Dentro explica, cantinho a cantinho, todos os meandros do cérebro e vai lançando desafios aos leitores, para nos ajudar a perceber, na prática, o que tudo aquilo significa. Das emoções à criatividade e à experiência estética, da memória à ação, da relação entre as pessoas ao cérebro dos animais e aos factos e aos mitos, de tudo fala este livro cheio de massa cinzenta. De Isabel Minhós Martins, Maria Manuel Pedrosa e Madalena Matoso > Planeta Tangerina > 368 págs. > €24,60

2. Máquina

Quantas máquinas podem caber num livro? E quantas cabem no nosso dia-a-dia, sem que demos conta disso? Computadores, ventoinhas, carros e aviões, telemóveis, elevadores, consolas, aspiradores, máquinas de filmar e de fotografar, aparelhagens, drones e robôs – tudo isto e mais ainda desenhou Jaime Ferraz em Máquinas, o mais recente livro da coleção Imagens que Contam, da editora Pato Lógico. Como sempre, não há texto neste livro e nem precisamos dele para percebemos a poesia que pode nascer no meio de tanta maquinaria. Valha-nos a chegada de uma espécie de Monsieur Hulot a esta história, um tio à moda de Jacques Tati, que vem de fora para abraçar e levar a passear o sobrinho. Num banco de jardim há de oferecer-lhe uma prenda que guarda um universo cheio de estrelas, planetas e constelações, uma selva onde correm animais selvagens, um oceano repleto de peixes grandes e pequenos, e um céu noturno com pássaros que voam sobre as flores. Não é difícil adivinhar que presente será. De Jaime Ferraz > Pato Lógico > 32 págs. > €13,50

3. Olhos Tropeçando em Nuvens e Outras Coisas

Já nos habituámos a esperar por livros especiais, de cada vez que o escritor João Pedro Mésseder e a ilustradora Rachel Caiano se juntam. Depois de Pequeno Livro das Coisas, de Tudo É Sempre Outra Coisa e de De Umas Coisas Nascem Outras, a dupla apresenta-nos Olhos Tropeçando em Nuvens e Outras Coisas, um conjunto de poemas que, descrevem, “talvez façam lembrar” os haicais (ou haikus) japoneses. Sem seguir as velhas regras desta poesia no Japão, é-se fiel à sua finalidade: “Em pouquíssimas palavras, fixar um momento especial da vida, que pode ser alegre, cómico até, ou triste, um momento cheio de beleza ou mesmo feio. Captar esse instante como numa fotografia”, escreve João Pedro Mésseder na introdução. E é isso mesmo que os dois fazem nas páginas seguintes, tanto com a palavra como com o desenho (a preto e vermelho, com ligeiros apontamentos de outras cores). Às vezes rimos, às vezes franzimos o sobrolho e sempre-sempre ficamos a pensar no que nos dizem. Ora veja-se: “’Hora de dormir’,/diz a mãe, ‘apaga a luz’./ Mas o meu livro acende-se.”; “A rua ainda dorme./ Abre-se a primeira porta./ Uma avó acorda o sol.”; “No jardim da praça,/ uma nuvem encobre o sol./ Chegou o sem-abrigo.”; “Como pode o banqueiro/ aguentar tão grande peso/no coração?”; “Olhos/tropeçando nas nuvens,/aturdidos de alegria.”; “Entre as flores/ de um lado e do outro da fronteira/ passeia a borboleta.”; “A pátria da abelha,/ da borboleta, do estorninho/ é a mesma e uma só.” Poderá o leitor não se sentir desafiado a compor os seus próprios poemas, como deseja o escritor? De João Pedro Mésseder e Rachel Caiano > Editorial Caminho > 48 págs. > €10,90

4. e 5. Como Pode Ser a Democracia/ É Assim a Ditadura

Uma pequena batota para falar não de um, mas de dois livros de uma só vez. Depois de Há Classes Sociais e As Mulheres e os Homens, a chancela Orfeu Mini, da editora Orfeu Negro, edita os outros dois títulos da coleção Livros para o Amanhã, de Equipo Plantel, sempre com um ilustrador diferente: Como Pode Ser a Democracia e É Assim a Ditadura. Originalmente publicados em 1977 e 1978, em Barcelona, fazem ainda sentido hoje e introduzem, juntos dos leitores mais novos, temas que não costumam andar pelos livros pensados para eles. “A democracia é como um recreio onde todos podem brincar ao que quiserem”, começa um deles, falando depois de regras e de leis, de acordos e de eleições, de partidos políticos, de prioridades para o país, de concordâncias e discordâncias, de conservadores e progressistas, da importância do voto e da informação, e, claro, da liberdade… Enfim, isso, mesmo, da democracia. Já o outro, começa assim: “A ditadura é como um ditado: um senhor diz o que se tem de fazer e todos o fazem. Só porque sim.” Aqui se explica como poucos mandam em muitos, como se criam injustiças, como se alimenta o medo, como se pune e se censura, como se ditam leis e castigos, como se proíbem até pensamentos, como se explora e se assusta enquanto se fazem festas e desfiles, e como, um dia, se diz “não”. No final de todos os livros da coleção, existe, ainda, espaço para um breve questionário e um desafio sobre o tema, e a atualização da história desde o final dos anos 70 do século XX até hoje. Para um amanhã melhor que este. De Equipo Plantel e Marta Pina /de Equipo Plantel e Mikel Casal > Orfeu Negro > 56 págs. > €14

6. A Rainha do Norte

O livro podia ser apenas a narração da lenda das amendoeiras em flor – e já, assim, a história seria bonita. Mas Joana Estrela consegue pegar neste conto de terras algarvias e dar-lhe uma dimensão gigante para lá da simples narrativa do rei árabe que se casa com uma princesa loura de olhos azuis. Diz a lenda que ela acaba por cair doente, sem se saber porquê e que, ao descobrir-se que são as saudades que a debilitam, o rei manda plantar amendoeiras que, quando florescem, cobrem o chão de flores brancas como a neve dos países do norte. Joana Estrela começa por nos pôr de sorriso no rosto, quando altera a narrativa habitual das histórias: neste A Rainha do Norte não se casa e vive feliz para sempre, aqui casa-se e vive-se feliz “durante algum tempo”. Com ilustrações só aparentemente simples e com uma sensibilidade fina, mudando pequeníssimos pormenores da história, a escritora e ilustradora vai-nos chamando a atenção para o que se esconde na lenda – a dificuldade de adaptação a outros contextos, os obstáculos quando se é diferente dos outros, a solidão e a saudade, os olhares estranhos e as sentenças da maioria, a dor da tristeza, e, por fim, a necessidade do tratamento certo. Sem nunca falar em depressão ou em psicoterapia, e introduzindo discretamente dois personagens na história que a aproximam dos leitores mais novos, o livro chega ao dia em que esta Rainha do Norte volta a sorrir. E nós com ela, como na primeira página. De Joana Estrela > Planeta Tangerina > 60 págs. > €13,90

7. Damião, a Toupeira Furacão

Depois de O Monstro das Cores, que ajudava as crianças a lidarem com sentimentos como a raiva, o medo, a tristeza e a alegria, a escritora e ilustradora catalã Anna Llenas criou este Damião, a Toupeira Furacão. A história acompanha esta pequena toupeira que destrói a tranquilidade que se vive debaixo do bosque. Não para quieta, é hiperativa, impulsiva, impaciente e todos os meninos da escola lhe chamam isto e muito mais, passando por “chato”, “inútil”, “tonto”, “esquisito”, “chumbo” e outros mimos que tais. Há de ser Berta, uma coelhinha de orelhas compridas, que o ajudará a encontrar o carril certo para a sua energia, através de brincadeiras, cozinhados, muitas pinturas e desenhos, e noites a ver as estrelas. Uma história contada de forma simples, com desenhos feitos sobre cortes e recortes de cartão pardo e de papéis, que lhes dá ainda mais texturas e dimensões. De Anna Llenas > Nuvem de Letras > 56 págs. > €12,90

8. Gaston

Que outros nomes poderia a Sra. Caniche dar aos seus cachorrinhos que não Fifi, Xuxu, Oh-lá-lá e Gaston? E que outros nomes haveria de escolher a Sra. Buldogue para os seus, se não Ruca, Rambo, Bruno e Antoinette? Gaston não é parecido com os irmãos, não faz “béu-béu” como os irmãos, não come nem bebe sem se babar, nem sabe desfilar com elegância, sem correr pela casa. Já Antoinette, claramente um caniche, é cachorrinha para rosnar e morder almofadas cor de rosa. Com muito sentido de humor, este livro (que só por acaso não nasceu em França, mas sim nos Estados Unidos) fala de semelhanças e de diferenças, de amor e de pertença. Será assim tão óbvio que um buldogue e um caniche foram trocados à nascença? E o que conta mais – as aparências ou os afetos? Uma história tão simples como enternecedora, que ainda nos mostra como, mesmo diferentes, nos podemos aproximar. E como, na verdade, o melhor é sermos o que bem quisermos. De Kelly DiPucchio e Christian Robinson > Orfeu Negro > 40 págs. > €14,50

9. Dia Bom ou Dia Mau?

Um livro mesmo a piscar os olhos aos mais rabugentos e mal dispostos, que insistem em não dar pelas coisas boas que os rodeiam. Nesta história dos gémeos Abel e Amália, escrita por Isabel Zambujal e ilustrada por Inês Fonseca, coube-lhe a ele ser o pessimista da família e a ela, a otimista. “Um vê tudo com olhos zangados e o outro com olhos alegres”, um encolhe-se, a outra explora, um farta-se, a outra diverte-se, um fica triste, a outra, feliz. Não será difícil perceber qual dos dois preferimos ser no final do livro. E há até uma página para podermos apontar todas as coisas boas que nos aconteceram no dia anterior e aquelas que gostaríamos que acontecessem no dia seguinte. Um belo exercício para resmungões. De Isabel Zambujal e Inês Fonseca > Oficina do Livro > 32 págs. > €11,90

10. Coisas de Ir à Mesa

De rimas e de A a Zs percebe José Jorge Letria. Coisas de Ir à Mesa é o seu mais recente livro e é isso mesmo: de Arroz a Zurrapa, o escritor fala de tudo aquilo que vem à mesa, sempre em verso e com boa disposição. E se as Batatas fizeram a revolução na Europa, os Doces devem ser comidos com moderação por culpa dos diabetes e dos dentes estragados. Já as Ervilhas ficam sempre bem no prato, garante o escritor, e a Fruta mal nunca nos faz. E se nesta receita entram Iogurtes, Sopas, Sumos e Legumes, também não lhe faltam Naperons, Talheres e muitas pitadas de Humor. A acompanhar, as coloridas ilustrações de Tiago Albuquerque, a abrir o apetite. De José Jorge Letria e Tiago Albuquerque > Booksmile > 40 págs. > €11,99

11. A Casa da Janela Azul

António Mota regressa aos dois irmãos coelhos, Fabi e Bitó, para nos contar mais uma história, mais uma vez ilustrada por Sebastião Peixoto. Depois de Onde Está a Minha Mãe?, eis A Casa da Janela Azul, passada em pleno inverno, altura dos dias frios e do vento que assobia todo o dia e toda a noite, época das árvores sem folhas e da falta de comida para os animais. Quem leu a primeira história, já sabe que os dois irmãos não são de ficar quietos no seu lugar e, desta vez, não será diferente. Um livro cheio de imaginação e de gente curiosa – afinal, o que haverá dentro da casa da janela azul? De António Mota e Sebastião Peixoto > Asa > 64 págs. > €11,50

12. A Cidade dos Animais

Quem, olhando em volta, nunca sonhou com os dias em que a natureza volta a tomar conta do mundo que atire a primeira pedra. Nesta estreia do ilustrador Joan Negrescolor como autor também do texto, vamos atrás de Nina, a rapariga que “gosta de ir até à cidade selvagem”. Com ela, entramos nos trilhos da floresta e, com sorte, quase como ela, sentimos-lhe os cheiros. Neste seu lugar secreto, onde vivem os animais e as plantas, Nina encontra objetos perdidos e senta-se para ler uma história que todos ouvem. Aos poucos, ao avançar no livro, vamos descobrindo vestígios de uma outra civilização: uma televisão, um telescópio, uma garrafa partida, cadeiras, casas invadidas por plantas, carros acidentados. O mundo já foi outro ali, pois, mas a natureza voltou a fazer dele um lugar tranquilo. Com um cuidado grande com a ilustração (e com as letras do texto!), Joan Negrescolor conta tudo isto através de cores fortes, dando aos desenhos quase um aspeto de negativo – é o outro lado da realidade, queremos acreditar. De Joan Negrescolor > Orfeu Negro > 40 págs. > €14,50