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'Altar', dos The Gift: Sempre a acrescentar

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Como sempre, como nunca. O novo disco dos The Gift, Altar, nasce da visão de Brian Eno e o modo de composição de Nuno Gonçalves

Nuno Miguel Guedes

'Altar', com produção de Brian Eno, anuncia uma nova sonoridade no percurso já com mais de 20 anos dos The Gift, dos irmãos Nuno e John Gonçalves, Sónia Tavares e Miguel Ribeiro

'Altar', com produção de Brian Eno, anuncia uma nova sonoridade no percurso já com mais de 20 anos dos The Gift, dos irmãos Nuno e John Gonçalves, Sónia Tavares e Miguel Ribeiro

Em What If…, a canção que fecha o novo disco dos The Gift, aparecem estes versos: “the towers are so high/the hours are so few”. Retirados do contexto da canção servem às mil maravilhas como lema para a banda de Alcobaça: há muito para conquistar e pouco tempo para o fazer – por isso, ao trabalho! É, na verdade, o que a banda tem feito desde o seu aparecimento, há mais de duas décadas. E têm-no feito seguindo o caminho que desde o início definiram: edição independente, controlo em todos os processos, da criação à promoção e aos concertos. Continuam a fazê-lo, alegremente imunes a preconceitos de alguma crítica bem-pensante, que os relega para uma espécie de superbanda de província; continuam a fazê-lo sempre com o objetivo a que se propuseram: serem melhores, de disco para disco. E, por esta altura, só com alguma má-fé é possível dizer o contrário.

Altar (2017) pode mesmo ser um disco de viragem para os The Gift. Não porque com ele tenham atingido o êxito entre o público, algo que já fizeram e mantêm, com um culto fidelíssimo; mas porque anuncia uma nova sonoridade que, respeitando a matriz da banda, é diferente. O principal suspeito é um sonho antigo dos músicos: Brian Eno e a sua produção. As canções ficam com os arames eletrónicos mais à mostra, mas não perdem um grama de consistência. A mistura entre a visão de Eno e o modo de composição de Nuno Gonçalves encaixa-se na perfeição. I Loved It All é um excelente exemplo: uma nota insistentemente repetida, uma melodia vocal contida e a música de súbito a abrir-se como uma flor num refrão magnífico, ajudado por um arranjo de cordas luxuriante. Mas há muito mais neste Altar: o tema irresistível que é Big Fish, a lembrança do synth pop em Clinic Hope, o bem eniano Love Without Violins, o electro-gospel de Malifest (bem antecipado no disco pelo tema Vitral), as quatro últimas canções, mais intimistas, mais perto do osso e do coração.

Sónia Tavares continua a ser uma excelente front woman que parece cada vez mais querer testar os seus limites. Com Altar, os The Gift alcançaram outra vez a ambição de quem anda nisto da música popular: acrescentarem-se a eles próprios e a nós.

Veja o vídeo de Big Fish