Visão Sete

Siga-nos nas redes

Perfil

'Vaicomdeus, SARL': Um sonho cheio de mambos

Livros e discos

Júlio de Almeida foi o Comandante Juju, deputado do MPLA e desencantado do sonho angolano. O pai de Ondjaki edita o seu primeiro romance em Portugal, Vaicomdeus, SARL

Júlio de Almeida é uma figura histórica do processo de emancipação angolana do jugo colonial português

Júlio de Almeida é uma figura histórica do processo de emancipação angolana do jugo colonial português

Não há sonho que não possa dar numa grande maka (confusão, conflito, discórdia). Não há utopia que se preze sem os seus mambos (problemas) e dissabores. Tal como não há angolano de corpo e alma que não se saiba rir das suas desgraças, como nota outro ilustre mwangolê (angolano) logo no prefácio, Pepetela. E é em plena África Austral lusófona que nos encontramos nesta ficção.

A Angola deste escritor serôdio – na verdade, já tinha editado alguns livros didáticos nos anos pós-independência – aparece sob o olhar de quem contribuiu para que ela existisse, como país independente, utópico, e promessa adiada de potência daquela região africana. Júlio de Almeida, pai do escritor Ondjaki, é uma figura histórica do processo de emancipação angolana do jugo colonial português. Ele foi o comandante Juju nos tempos da guerrilha contra o exército colonial, e disse presente nos primeiros anos do jovem país enquanto deputado do MPLA.

Mas desiludiu-se. A Angola desses sonhos desvanecidos já foi narrada noutras ocasiões, por penas diferentes. Aqui surge na história de duas personagens que se cruzam sem querer, um ex-guerrilheiro convertido em explicador de matemática e uma mulher cuja mãe foi morta numa emboscada dos portugueses. Quis o acaso (e o mundo é feito deles, nota o protagonista) que se encontrassem anos mais tarde, e partilhassem recordações. Ela é o rosto da nova Angola, recém-
-convertida ao mercado, e dirige uma agência funerária, a ironicamente chamada Vaicomdeus, SARL.

Tudo é feito de melancolia e ironia, e vice-versa, nesta obra. O que nos assalta, porém, é uma capacidade de reflexão que mistura o humor com a lucidez, como se fossem um só. O protagonista, Eugénio, resume a dado passo a sua passagem pelo mundo. Ou, pelo menos, uma etapa importante dela: “É facto que passei doze anos da minha vida na guerrilha”, diz à sua interlocutora, “mas não me considero chutado para canto, só que eu não aceitei e não aceito jogar em determinadas equipas; há muitas coisas que não consigo aprender a fazer”.

Vaicomdeus, SARL (Caminho, 184 págs., €16,90) é a primeira obra de ficção de Júlio de Almeida e narra, com desencanto, a passagem da Angola das lutas de libertação para os primeiros anos da independência, um pouco antes de chegar o fim da guerra civil.