Visão Sete

Siga-nos nas redes

Perfil

'Escravos em Portugal', de Arlindo M. Caldeira: Gente de carne e osso

Livros e discos

Como viviam os escravos em Portugal? O que pensavam? Quais os direitos exercidos sobre eles pelos proprietários? No livro Escravos em Portugal, Arlindo M. Caldeira responde a estas e outras questões

Arlindo Manuel Caldeira é licenciado em História e investigador do Centro de História de Além-Mar da Universidade Nova de Lisboa

Arlindo Manuel Caldeira é licenciado em História e investigador do Centro de História de Além-Mar da Universidade Nova de Lisboa

Perguntas pertinentes e talvez óbvias. Óbvias as perguntas, não tanto as respostas, que têm pecado pela ausência como se o véu do esquecimento (da ignorância mesclada de desinteresse) que gostamos de fazer correr sobre o que nos incomoda fosse, neste caso, ainda mais opaco. E, no entanto, sobre o tráfico negreiro bastante tem sido escrito a nível académico e divulgado no plano do manual escolar. Faltavam os escravos de carne e osso, mulheres, homens e crianças de todas as cores e credos que, ao longo dos séculos e de formas diversas, constituíram uma boa parte da população do País.

É esta curiosidade legítima que Arlindo Manuel Caldeira vem agora satisfazer. Autor já de um anterior livro sobre o tráfico, o investigador do Centro de História de Além-Mar da UNL mostra-nos a forma como as classes servis se foram inserindo na sociedade “metropolitana”.

Bem anterior à época da Expansão, a escravatura é tão antiga como o ser humano. Fundamentalmente prisioneiros de guerra, os escravos eram bens dos proprietários e guerreiros das sociedades pré e proto-históricas. Há depois as formas de servidão praticadas pelos “bárbaros” e o que destas práticas constituiu um esteio da sociedade guerreira da Reconquista, assente na escravização do inimigo. Só no século XVI entram em força os escravos africanos, aqueles que no subconsciente mais identificamos com a instituição. E mesmo a escravatura dos negros, mesmo essa, não flui como um rio sujo de águas uniformes. Contestada por vozes da Igreja não em si mas pela forma como era exercida, encontraria, já na modernidade, críticos nos nichos talvez mais imprevistos: nos integralistas, ultranacionalistas, tementes das quebras de energia e da conspurcação da “raça”.

Este livro fascinante é também a história de Lourenço, João, Florinda e Grácia, casos avulsos de uma tragédia sem fim que, infelizmente, em anos mais recentes tem voltado às páginas da imprensa pelos piores motivos, com alguns processos judiciais em torno de casos de escravatura.

Escravos em Portugal, das Origens ao Século XIX (A Esfera dos Livros, 524 págs., €24,10) complementa e aprofunda a anterior obra do autor Escravos e Traficantes no Império Português: O Comércio Negreiro Português no Atlântico durante os Séculos XV a XIX, publicado em 2013 com a mesma chancela.