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'Praça de Itália', de Antonio Tabucchi: As armadilhas do tempo

Livros e discos

O primeiro livro de Antonio Tabucchi, de quem disseram “de expressão portuguesa”, já tem muitos dos condimentos da obra que se seguiria. Praça de Itália foi reeditado pela Dom Quixote

“Este livro é memória, uma longa memória que se opõe à memória breve dos mass media. Eu acreditei sempre na literatura como memória”, disse Antonio Tabucchi sobre 'Praça de Itália'

“Este livro é memória, uma longa memória que se opõe à memória breve dos mass media. Eu acreditei sempre na literatura como memória”, disse Antonio Tabucchi sobre 'Praça de Itália'

António Xavier

Garibaldo (a escolha do nome não é inocente, já lá iremos) está sentado na capela onde se faz o velório do pai. Via-o “estendido no caixão, de braços cruzados sobre o fato de casamento”, ainda a sorver o momento daquela ausência. Mas o pai “viria em seu auxílio”, escreve o autor: “Sentou-se, puxou do relógio de bolso e disse: ‘Ainda temos algum tempo’”. O defunto puxou então de meio charuto e gastou essas últimas horas como uma assombração à conversa com o filho, no último momento antes de partir. A conclusão deste episódio com que começa Praça de Itália é dada, na verdade, logo na primeira frase: “A única coisa que Garibaldo não conseguia compreender da vida era a morte”.

Tabucchi iria habituar-nos, mais tarde, ao jogo com o tempo: da vida e da morte, da cronologia rigorosa às armadilhas que nos pregam os sonhos, o real e o imaginário. Praça de Itália, publicado em 1975, ainda não tem as piscadelas de olho do autor a Portugal, que conhecia desde os 22 anos e ao qual se ligaria para sempre depois de ter descoberto um poema de Pessoa enquanto estudava na Sorbonne.

Antonio Tabucchi (1943-2012) iria casar-se com uma portuguesa, entusiasmar-se a escrever sobre Pessoa e outros seus (de Pessoa...) compatriotas. Mas a alma deste transalpino nunca deixaria de ser errante, um pouco como a estrutura deste livro que narra a saga de três gerações de uma família de anarquistas libertários – à semelhança de Garibaldi, herói nacional responsável pela unificação da Itália, no século XIX – que se mede de forças com a autoridade, a História e a (des)ordem do tempo. A presença do duplo é também uma constante, como viria a ser noutros momentos do trajeto literário de Tabucchi (O Jogo do Reverso e o Noturno Indiano, por exemplo).

E o que há a fazer para nos resgatar das amarras do tempo, da nossa finitude? A resposta de Tabucchi, quando falava desta obra, é novamente simples e agregadora: “Este livro é memória, uma longa memória que se opõe à memória breve dos mass media. Eu acreditei sempre na literatura como memória”.

Praça de Itália (D. Quixote, 168 págs., €14,90), agora reeditado, é o primeiro passo da obra extensa de Antonio Tabucchi e traz-nos uma saga familiar no contexto da História italiana