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Piotr Anderszewski: Fantástico, apaixonado. E sóbrio

Livros e discos

No disco Fantaisies, ouvimos Schumann e Mozart por um grande pianista polaco que ainda recentemente escolheu Lisboa para viver

Luís M. Faria

Piotr Anderszewski tem um estilo sóbrio, sem excessos de volume ou de entusiasmo

Piotr Anderszewski tem um estilo sóbrio, sem excessos de volume ou de entusiasmo

Ari Rossner

Entre os pianistas não há propriamente falta de excêntricos. Glenn Gould processou a Steinway por um técnico amigável lhe ter dado uma palmada nas costas. Horowitz fez-se convidado para jantar em casa do seu afinador, telefonando na véspera a explicar o que ia ser o menu. Isto para já não falar em excentricidades artísticas. No caso de Piotr Anderszewski, e no contexto atual, a sua principal excentricidade é não haver nenhuma. Ele tem um estilo sóbrio, sem excessos de volume ou de entusiasmo, nem ralentandos absurdos ou embelezamentos arbitrários, nem nada que nos impeça de ouvir as obras como estão escritas. No entanto, a mestria sente-se a cada momento no controlo técnico e na musicalidade.

O presente disco faz uma combinação de obras pouco óbvia. Entre as etéreas variações que foram a última obra de Schumann e duas obras mozartianas em dó menor (a Fantasia k. 475 e a Sonata k. 457), tratadas pelo pianista como se fossem uma só, aparece a Fantasia op. 17, de Schumann, obra chave do reportório pianístico romântico. Escrita com o objetivo de angariar fundos para um monumento a Beethoven, foi dedicada a Franz Liszt, o qual retribuiria dedicando a Schumann a sua Sonata em Si, igualmente genial. Curiosamente, essa sonata é num único movimento, enquanto a Fantasia op. 17 tem três: um primeiro marcado como “fantástico e apaixonado” (“durchaus fantastisch und leidenschaftlich”), inspirado pelo amor a Clara Schumann; uma marcha que por vezes evoca o estilo das últimas sonatas de Beethoven; e uma meditação final de maravilhosa serenidade.

Ao pé de outras interpretações contemporâneas como, digamos, a de Evgeny Kissin – cujo CD emparelha a Fantasia com uma seleção dos Estudos Transcendentais de Liszt, os quais não levam tal nome por acaso –, a de Anderszewski pode soar algo contida. Mas essa impressão, que aliás já havia surgido ocasionalmente no Mozart, desaparece ao fim de uma ou duas audições.

Fantaisies (Warner Classics), o mais recente disco de Piotr Anderszewski, tem como bónus um DVD que tem um filme do pianista polaco sobre Varsóvia.