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Um livro com muitas rugas

Livros e discos

A Orfeu Mini regressa às histórias da italiana Simona Ciraolo, com O Rosto da Avó. Quanta ternura cabe dentro de um livro? E quantas memórias cabem numa ruga só?

Não há duas sem três, felizmente, e, depois de publicar Quero Um Abraço e O Que Aconteceu à Minha Irmã?, de Simona Ciraolo, a Orfeu Mini traz para português O Rosto da Avó. Habituamo-nos a conhecer a escritora e ilustradora italiana pela ternura que põe nas histórias e nos desenhos e, mais uma vez, não nos desilude. Logo na capa, faz-nos adivinhar o que vamos encontrar lá dentro, com o sorridente abraço entre avó e neta, em fundo cor de rosa suave, rodeadas de florzinhas (sim, aqui o diminutivo justifica-se).

Com um pente e um perfume, um globo de neve e fotografias antigas, um búzio e um conjunto de cartas, uma fatia de bolo e uma chávena de chá, um carrinho de linhas, um dedal e uma almofada com agulhas espetadas, Simona Ciraolo dá início a esta história, ainda antes de começar – e assim entramos em casa desta avó que faz anos e que convidou a família para um dia de festa. É a neta mais pequena, a narradora, e percebemo-lo na primeira ilustração: ao contrário de todas as outras personagens, traçadas apenas a cor de laranja, ela está pintada com todas as cores que lhe pertencem, a condizer com os dois balões, amarelo e cor de rosa. Diz a neta, sobre a avó: “Sei que ela está feliz, pois gosta de nos ver todos juntos. Mas, por vezes, parece que também está um pouco triste, surpreendida, ligeiramente preocupada. Tudo ao mesmo tempo”, descreve, enquanto, na página do lado, conhecemos a aniversariante e o seu rosto de sorriso tranquilo, enrugado.

É numa espécie de estufa, cheia de plantas, que começa a conversa entre as duas sobre as linhas do rosto da avó. “É nestas linhas que guardo todas as minhas memórias!”, explica. “Como é que linhas tão pequenas têm espaço para tantas memórias?”, quer saber a pequena. E, uma a uma, vai interrogando sobre o que guardam. Assim se desenvolve esta história de memórias e segredos. A cada pergunta da neta, uma memória da avó, anunciada numa página e mostrada na dupla página seguinte, em flashback, apenas com uma ilustração de cores mais vivas ­– e nunca é óbvia, consegue sempre surpreender-nos. Como esta: o “melhor piquenique que fiz à beira-mar”, que depois vemos ser um dia na praia com as amigas, debaixo de um céu cinzento e com muita ventania. Ou a da ruga da testa, que marca a noite em que conheceu o marido, cara franzida e assustada, numa montanha russa. Ou aquelas debaixo dos olhos que guardam a noite passada em claro a costurar o vestido de noiva da irmã. Ou outras, à volta da boca, a lembrar “a primeira vez que tive de dizer adeus”.

Entre recordações felizes e outras mais tristes, a avó vai mostrando um passado entusiasmante, feito de pequenos acontecimentos. A história, essa, celebra a vida, a curiosidade da infância, a riqueza e sabedoria da terceira idade e ainda a partilha entre novos e velhos, entre netos e avós.

O Rosto da Avó > de Simona Ciraolo > Orfeu Mini, Orfeu Negro > 40 págs > €13,50