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'Lanzarote', de Michel Houellebecq: Os cínicos também amam

Livros e discos

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Uma recolha de textos que desvenda um pouco mais do olhar desencantado do autor sobre o mundo

Mais do que “contar uma história”, em Lanzarote, Michel Houellebecq expõe-se nesta espécie de caderno de impressões sobre a ilha, o turismo e a vida contemporânea

Mais do que “contar uma história”, em Lanzarote, Michel Houellebecq expõe-se nesta espécie de caderno de impressões sobre a ilha, o turismo e a vida contemporânea

Michele Tantussi / Getty Images

O turismo tem destas coisas: podemos estar numa ilha vulcânica perdida no meio do Atlântico, ao largo da costa africana, chamar-lhe “europeia” e estar rodeados de gente dos quatro cantos da Europa. Mais do que deslumbrar-se com este cosmopolitismo possível pelos voos constantes em regime low cost, Michel Houellebecq mostra como o tédio nos pode assaltar mesmo numa viagem a um sítio desconhecido, neste caso Lanzarote, uma das mais estranhas e pacatas componentes do “mui” turístico arquipélago das Canárias.

Sob a paisagem “lunar” da ilha que tão bem conhecemos à distância – foi o lugar eleito por José Saramago para as últimas décadas de vida, ao lado de Pilar del Rio –, ou melhor, corrige Houellebecq, “marciana”, somos confrontados com um belga desiludido com a vida e duas lascivas turistas alemãs que acabam por salvar as férias ao protagonista. E quem é ele? Um alter-ego do próprio autor, claro, que decidiu verter para a posteridade umas férias desencantadas e salvas pelo amor a três com as alemãs e com a surpresa que o belga reservará para o fim.

Mais do que “contar uma história”, em Lanzarote, o autor expõe-se nesta espécie de caderno de impressões sobre a ilha, o turismo e a vida contemporânea, em que o hedonismo concorre por um lugar com o vazio. Sempre cínico e desencantado, Houellebecq provoca-nos constantemente, escrevendo com um estilo ora pueril – quase uma redação de escola – ora lírico, e faz com que esta obra seja uma espécie de contraponto desiludido aos Cadernos de Lanzarote, de Saramago.

Ao mesmo tempo, os grandes temas do francês estão lá todos – a inquietação com as ideias feitas e o vazio contemporâneo, a contradição perante as mulheres (admira-lhes a beleza e a personalidade e ao mesmo tempo dá ao texto fortes pinceladas de misoginia), a islamofobia e a aversão às grandes causas, sobretudo as francesas…

Lanzarote (Alfaguara, 106 págs., €13,50) foi inicialmente publicado em 2000, entre êxitos e polémicas (depois de As Partículas Elementares e antes de O Mapa e o Território, prémio Goncourt 2010). Este ano vai editar em França um ensaio sobre o filósofo Arthur Schopenhauer