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'Tremble Like a Flower': Humor e melancolia

Livros e discos

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Este disco é mais um capítulo no percurso de um dos nossos mais inspirados escritores de canções. Eis a nova identidade artística de J.P. Simões, Bloom

J.P. Simões agora é Bloom, uma espécie de eco dos tempos gloriosos dos Belle Chase Hotel

J.P. Simões agora é Bloom, uma espécie de eco dos tempos gloriosos dos Belle Chase Hotel

Em alguns momentos de Tremble Like a Flower podemos sentir que a nova identidade artística de J.P. Simões, Bloom, é como uma espécie de eco dos tempos gloriosos dos Belle Chase Hotel. Ou talvez seja só uma ilusão, que se explica facilmente pelo regresso à língua inglesa como material de trabalho para a sua voz. Pelo meio, em bom português, houve o balanço brasileiro de Roma, as canções inspiradas de 1970 (“Vai minha geração, nasceste cansada, mimada, doente por tudo e por nada, com medo de ser inventada, o que é que te falta agora que não te falta nada?”), o efémero Quinteto Tati. Sempre presente, há uma vontade de ser fiel a si próprio, um artista/escritor de canções que encontrou a sua voz entre o desassossego e a inquietude e que não prescinde de desenhar o seu próprio caminho.

As dez novas canções revelam imediatamente uma pátina, como um filtro que nos situa num outro tempo, provavelmente os anos 60/70 do século passado ou aquele lugar incerto a que se costuma chamar “intemporalidade”. O próprio título do disco remete para um verso de David Bowie (de Let’s Dance: “If you should fall into my arms and tremble like a flower…”) que também é evocado nessa canção de amigo que é Hey Georgie! (“Hey Major Georgie, there’s no ground control…”).

Mas há um outro nome que parece pairar sobre este novo registo de JP. Simões: Nick Drake, o músico britânico desaparecido em 1974, aos 26 anos, depois de deixar como legado um folk triste, belo e delicado. A melancolia não é uma novidade na identidade de J.P. Simões, sempre temperada, sobretudo na conversa de palco, com um imparável humor, livre e absurdo. Além das guitarras e da voz de J.P., um outro músico marca o som deste disco: Miguel Nicolau, co-produtor e responsável por “guitarras, baterias irreais e arranjos”.

Tremble Like a Flower é mais um passo, seguro e frágil ao mesmo tempo, de um artista (porque é que esta palavra caiu em desuso?) que não desiste de se pôr inteiro no que faz e viver assim. “Quem julga que é fácil, que experimente levitar sobre o Tejo… A vida é difícil, sempre foi”.

Com Tremble Like a Flower, J.P. Simões (agora, Bloom) chega ao seu público sem a marca de nenhuma editora. Um disco (e uma edição) de autor

Com Tremble Like a Flower, J.P. Simões (agora, Bloom) chega ao seu público sem a marca de nenhuma editora. Um disco (e uma edição) de autor

Ouça aqui Tremble Like a Flower