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'Um Dia de Loucos', uma história que não bate certo

Livros e discos

Há mais de 80 anos, na rádio, o filósofo alemão Walter Benjamin incitava os mais novos a pensarem. Agora, um dos seus programas transforma-se em livro para crianças – e põe-nos a todos a puxar pela cabeça. Um Dia de Loucos, com ilustrações de Marta Monteiro, já chegou às livrarias

Os textos do programa de rádio para crianças de Walter Benjamin foram reunidos no volume Radio Benjamin. Sem edição portuguesa, a editora Bruaá pegou num desses programas e transformou-o num livro ilustrado

Os textos do programa de rádio para crianças de Walter Benjamin foram reunidos no volume Radio Benjamin. Sem edição portuguesa, a editora Bruaá pegou num desses programas e transformou-o num livro ilustrado

Recue-se ao final dos anos 20 do século passado, para imaginar Walter Benjamin num estúdio de rádio. Eram os primeiros passos deste meio de comunicação na Alemanha e, atrás dos microfones, sentava-se aquele que, mais tarde, seria reconhecido como um dos mais importantes pensadores do século XX. E o que fez ali durante seis anos? Um programa para crianças, onde falava dos mais variados temas – da erupção do Vesúvio à inundação do Mississípi ou ao terramoto de Lisboa, mas também de livros e peças de teatro, por exemplo. Os textos foram, mais tarde, reunidos no volume Radio Benjamin, nunca publicado por cá. Valha-nos agora a editora Bruaá, que pegou num desses programas e o transformou num livro ilustrado para crianças.

Um Dia de Loucos é um livro-jogo

Um Dia de Loucos é um livro-jogo

Um Dia de Loucos – Trinta Ossos Duros de Roer é, como Walter Benjamin descreve logo de início, uma história em que “muita coisa não bate certo”. São 15, os erros que espalhou neste texto, anuncia, e ainda 15, as perguntas a que teremos que responder. Cabe aos leitores, portanto, porem a cabeça a trabalhar. Benjamin sugere que se faça um risco por cada erro encontrado e dois por cada pergunta respondida, mas descansa os interlocutores: “Dá um total de 45 pontos. Nenhum de vocês vai conseguir chegar a esta pontuação. Mas isso também não é preciso. Dez pontos já são um resultado muito bom.” E acrescenta: “Nesta história o mais importante é pensar. Parem um pouco para pensar, e vão ver que conseguem dar a volta às perguntas e aos erros.” E enquanto se faz isso, aproveite-se para ver com atenção as ilustrações que Marta Monteiro criou para este texto.

Ao mesmo tempo, a Bruaá lançou também Céu de Sardas (24 págs., €13,90), de Inês D’Almey e Alicia Baladan, outro livro-jogo. Ou melhor, uma história para jogar – pelas personagens, que, na pele uma da outra, inventam histórias com os desenhos que formam as sardas e as pintas; e pelos leitores, a quem são dados pequenos círculos com imagens para que possam criar as suas próprias histórias. Sim, num e noutro, é preciso puxar pela cabeça e levar a imaginação mais longe – não é exatamente para isso que existem os livros?

Um Dia de Loucos – Trinta Ossos Duros de Roer (Bruaá, 40 págs., €15), um dos cerca de 90 programas de rádio para crianças que Walter Benjamin fez entre 1927 e 1933, foi transmitido na Rádio de Frankfurt a 6 de julho de 1932