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'Skeleton Tree', de Nick Cave & The Bad Seeds: O caminho faz-se caminhando

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Um disco negro, ensombrado pela tragédia, mas que encontra saídas. E que nos diz que podemos sempre contar com Nick Cave

O lançamento de Skeleton Tree, o novo disco de Nick Cave, foi antecedido da estreia, numa exibição única em salas de cinema de todo o mundo, do filme One More Time With Feeling. O documentário mostra muito do trabalho de Nick Cave, Warren Ellis (a produção é assinada pelos dois) e as restantes más sementes (Bad Seeds) na gravação das oito novas canções. Filme e disco apareceram, assim, com uma ligação umbilical, como se fizessem parte do mesmo gesto. Para os muitos fiéis admiradores do músico australiano, assistir a One More Time With Feeling (título retirado de um verso da canção Magneto) foi uma experiência intensa e difícil. Um tema sobressai sobre tudo o resto: a morte do seu filho Arthur, aos 15 anos, em julho do ano passado. E Nick Cave não só não passa ao lado do assunto como aproveita o filme para dizer tudo o que tem a dizer sobre o assunto, mostrar o que tem a mostrar, verbalizar esse “trauma” que ocupou tudo, sem deixar espaço, como explica, para a imaginação e a criatividade. Ver e ouvir Nick Cave a lidar com essa tragédia pessoal à nossa frente eclipsa tudo o resto (como se também essa opção ocupasse o espaço todo).

Em Skeleton Tree ouvem-se oito canções em pouco mais de meia hora de música. Mas é uma experiência intensa, com sentimentos à flor da pele, entre devastação e luz

Em Skeleton Tree ouvem-se oito canções em pouco mais de meia hora de música. Mas é uma experiência intensa, com sentimentos à flor da pele, entre devastação e luz

Mas será injusto ler (ouvir) Skeleton Tree, que estava a ser trabalhado desde 2014, com essa mesma atitude. Se, no filme, a morte de Arthur Cave é o tema central, no disco é uma sombra que paira. É tentador, mas redutor, ouvir todas as canções como uma espécie de catarse, luto ou despedida – mesmo que encontremos momentos em que essa análise faz todo sentido (por exemplo, em momentos de I Need You ou Distant Sky, com a presença da voz etérea da soprano dinamarquesa Else Torp). É, certamente, um dos mais negros, tristes e pungentes discos de Nick Cave – o que, vindo de quem vem, é dizer muito. Faltam aquelas canções narrativas que Cave faz como ninguém (a sua relação com as palavras mudou, conta-nos, no filme) e qualquer réstea de uma energia hedonista. Musicalmente, há ligações ao disco anterior (Push the Sky Away, de 2013), uma marca óbvia do som de Warren Ellis e uns Bad Seeds seguros, elegantes, brilhantes em pequenos pormenores.

Veja o vídeo de I Need You