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Nelson Rodrigues, o virtuoso da frase

Livros e discos

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Tardaram décadas a chegar a Portugal, mas vingam agora em dose dupla: O Homem Fatal e A Vida Como Ela É, contos e crónicas do “anjo pornográfico”

Ruy Castro escreveu-lhe a biografia, crendo que a vida de Nelson Rodrigues (1912-1980) era romance: era filho de um jornalista carismático, passou fome, teve tuberculose, iniciou-se na crónica policial aos 13 anos, viu o seu irmão favorito ser baleado em plena redação por uma mulher cujo divórcio fora escancarado na edição de véspera, escreveu peças provocatórias (17, ao todo), nove romances, e pagou contas à custa de milhares de crónicas inspiradas. Foi admirado e vilipendiado; hoje, é um mito nas letras brasileiras. Era ciumento, mulherengo, misógino, reacionário, leitor voraz, cultivador de irritações e obsessões recorrentes – a úlcera, as mil reencarnações da morte, as mulheres (feias, bonitas, virtuosas, infiéis, engraçadinhas...), os panhonhas, os intelectuais “de passeata”, os canalhas.

Em Pirâmides e Biscoitos, primeira das 80 “Confissões”, as crónicas publicadas diariamente no jornal O Globo e escolhidas e prefaciadas por Pedro Mexia em Nelson Rodrigues – O Homem Fatal, a propósito de João Guimarães Rosa, alonga-se no tema da cuspidela até chegar às últimas linhas, quando sabe da morte do escritor venerado: “A nossa saúde cardíaca é um eterno mistério (...). Depois do medo, veio algo pior e mais vil: – uma espécie de satisfação, de euforia (...). Cada um de nós tem seu momento de pulha. Naquele instante, eu me senti um límpido, translúcido canalha.”

Diz Mexia, confesso devoto: “É um género de crónica folhetinesca, de um admirador de Alexandre Dumas, capaz de tornar qualquer historieta aventurosa ou patética; mas é também o esforço honesto de um jornalista em trabalhos forçados, um “remador de Ben-Hur”, todo o dia enchendo a página para pagar “o sapato da mulher e o leite do caçula”.

Abel Barros Baptista, que assumiu a seleção dos 60 contos compilados em A Vida Como Ela É, exalando o ridículo e os golpes de teatro do sexo e adultério, defende que Rodrigues “domina como poucos a arte da frase”. E a da sentença provocatória: “Todo canalha é magro”, “toda a unanimidade é burra”, postulava. Imperdível.

Nelson Rodrigues – O Homem Fatal (Tinta da China, 368 págs., €19,90) e Nelson Rodrigues – A Vida Como Ela É (Tinta da China, 376 págs., €19,90) são os primeiros volumes lançados pela editora, que planeia publicar igualmente o livro de memórias A Menina Sem Estrela e peças de teatro do autor brasileiro.