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Retrato de fotógrafa enquanto jovem, um livro de William Boyd

Livros e discos

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Cruzando os fios de realidade e ficção, o escritor britânico William Boyd captura, no livro Doce Carícia, a biografia de uma fotorrepórter de guerra – que nunca ninguém conheceu

Neste livro, William Boyd mistura os códigos da literatura, da história, da reportagem, da memória

Neste livro, William Boyd mistura os códigos da literatura, da história, da reportagem, da memória

David Levenson

Há um retrato de Amory Clay no início do livro: a imagem, num preto e branco carcomido, revela uma jovem de fato de banho e cabelos escuros, os pés na água, um braço levantado para o céu. Um momento irrepetível cartierbressoniano, em 1928. As páginas seguintes transportam-nos para 1977, para dentro do cottage escocês isolado onde ela vive, num “confortável limbo tecnológico” sem eletricidade nem televisão. Nestes “diários de Barrandale”, Amory descreve o seu recolhimento: “Aqueço-me com turfa e tenho aquela luz muito particular dos candeeiros a petróleo – o subtil tremeluzir do pavio incandescente e aquele marshmallow de brilho suave a provocar a subtil deslocação de sombras que faz com que uma divisão fique mais viva: fá-la respirar, fá-la pulsar.” A atenção à luz é crucial: a vida aqui contada é a de uma fotógrafa de guerra, nascida em 1908, que viveu, e registou, os tropeços do século XX.

Clay conheceu os clubes de strip de Berlim nos anos 1920 e, em 1930, viveu as manifestações dos fascistas, os camisas negras, em Londres. As convulsões da II Guerra Mundial, apanham-na em França, e, décadas depois, rasa o inferno do Vietname. O seu portefólio é prova do pioneirismo de um punhado de mulheres que disparavam fotografias num mundo masculino, como Martha Gellhorn ou Annemarie Schwarzenbach, entre outras nomeadas por William Boyd. Filha de um escritor falhado, traumatizado pela guerra, que, num passeio com a pequena Amory, atira suicidariamente com o carro para um lago, ela lidará com as feridas da dúvida e da traição durante toda a sua vida – que não existe.

Doce Carícia é uma biografia de uma mulher ficcional, um peão num jogo híbrido em que Boyd mistura os códigos da literatura, da história, da reportagem, da memória – incluindo até fotografias semeadas pelo livro, para melhor conjurar o embuste. Uma ilusão tão elegantemente escrita, tão sólida, tão sedutora, que Amory Clay se tornará uma memória verdadeira para os leitores.

Doce Carícia (D. Quixote, 464 págs., €23,90) é o 16.º livro do autor britânico, que, em 2013, escreveu A Solo, elogiada continuação das aventuras de James Bond, o agente secreto criado por Ian Fleming

Doce Carícia (D. Quixote, 464 págs., €23,90) é o 16.º livro do autor britânico, que, em 2013, escreveu A Solo, elogiada continuação das aventuras de James Bond, o agente secreto criado por Ian Fleming