Visão Sete

Siga-nos nas redes

Perfil

'Kanamalu', de Kimi Djabaté: Da Guiné, sem vergonha

Livros e discos

  • 333

Ao terceiro disco, o músico de Tabatô afirma, orgulhosamente, as suas raízes, na esperança de um futuro mais livre e democrático

Desde 2009 que Kimi Djabaté tem vindo a afirmar um dos percursos mais estimulantes das sonoridades lusófonas

Desde 2009 que Kimi Djabaté tem vindo a afirmar um dos percursos mais estimulantes das sonoridades lusófonas

Nem de cantar, nem de escrever, nem de qualquer outra profissão. “Não tenhamos vergonha”, canta Kimi Djabaté. “Não tenhamos vergonha de quem somos”. Numa palavra (em crioulo): Kanamalu. E assim, no título e num dos seus temas mais fortes, fica vincado o espírito do terceiro álbum do músico guineense, que desde 2009 tem vindo a afirmar um dos percursos mais estimulantes das sonoridades lusófonas (e não só). Ao correr de 12 faixas, sobressaem evocações familiares, tributos a ensinamentos ancestrais, críticas a desentendimentos, votos de um amanhã diferente. Para Djabaté, a música é a expressão da sua cidadania. Uma marca identitária.

Não podia, aliás, ser de outra forma. Além de ter nascido no ano da independência da Guiné-Bissau, em 1975, Djabaté é natural de Tabatô, aldeia onde todos os habitantes são músicos. Desde os três anos que cumpre o destino traçado pelos seus antepassados, ligados à música desde o século XIII. Há 500 anos, saíram do Mali em busca de melhor sorte. Com eles, também chegou à Guiné-Bissau a cultura Mandinga, comum a inúmeros artistas da África Ocidental e um dos sons mais destacados das Músicas do Mundo.

É essa exuberante tradição tribal que fervilha em cada tema de Kanamalu. Quente, densa e versátil, a voz de Kimi Djabaté é amparada por um rendilhado harmonioso que resulta da conjugação de instrumentos diversos. Num plano, os agudos da kora e do balafon, imagens de marca de Tabatô. Noutro, a cadência dos djembé e das congas. E, no fim, os coros de Maritza Bossé e Soraia Delgado. Entre os vários registos, espaço e tempo para o improviso, a revisitação e a glosa, em músicas que se alongam sem nunca se repetirem. As rimas do crioulo guineense emprestam a cada canção a sua força e espessura, num colorido que se transforma em oração a um povo. “Filhos da Guiné, vamos-nos unir. Vamos dar o respeito à Democracia. Para tirar o país das dificuldades”. Também pela música. E sempre sem vergonha.

Em Kanamalu, todas as músicas são cantadas em crioulo guineense, menos a última, Djaraby-lé, que conta com a participação especial de Susana Travassos.