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Em Casas com Escritos, Margarida Acciaiuoli conta a história da habitação em Lisboa. Da cidade de inquilinos à concretização do sonho de ter casa própria, o livro escrito pela professora da Universidade Nova de Lisboa e agora publicado pela Bizâncio, é um bom ponto de partida para ficar a conhecer melhor Lisboa e o que mudou dentro de portas

Arquivo Municipal de Lisboa I Fotográfico

1| Os escritos

Os quadrados de papel branco, que se colavam nas vidraças a indicar que a casa estava prestes a vagar, dão título ao livro. “Para lembrar um costume secular que é incluído no primeiro Código Civil, de 1867”, explica a autora, Margarida Acciaiuoli. “Batia-se à porta, mesmo a desoras, e o inquilino tinha a obrigação de mostrar a casa”. Acaba com o aparecimento das imobiliárias, nos anos 90.

2| Cidade de inquilinos

Até à década de 40 do século passado, Lisboa era uma cidade de inquilinos (ou de prédios de rendimento). Para perceber porquê, houve que recuar até ao Terramoto de 1755. “Era urgente alojar toda aquela gente e o marquês de Pombal inventa uma tipologia de prédio, estandardizado, acenando a quem tinha dinheiro para investir na construção de casas, com a garantia de rendimento seguro”.

3| Mudar de casa

Em meados do século XIX, e até aos primeiros anos do século XX, os lisboetas mudavam de casa com extraordinária frequência. “As rendas eram pagas pelos Santos e pelo Natal, e nestas alturas era um frisson na cidade. Mudava-se não porque a renda fosse cara, mas pelo gosto de mudar, na expetativa do novo bairro, do número de divisões, da vista da janela. O que mostra um profundo desapego à casa.”

4| A importância do elevador

Em 1911, contavam-se quatro elevadores em Lisboa. “Do que é verdadeiramente importante, é que o elevador vem revolucionar a habitação. Até então, quem tinha dinheiro, ficava com o primeiro andar. O remediado, com o segundo. Aquele que tinha ainda menos, com o terceiro e quem não tinha dinheiro quase nenhum, com o último. Com o elevador, a situação inverte-se: quem tem dinheiro quer ficar com os andares mais altos, porque têm a melhor vista”.

5| Novo modelo de casa

A partir de 1955, com a Lei da Propriedade Horizontal, que permite ao proprietário vender os andares, é que vai construir-se em altura. Surgem os blocos de apartamentos, mas a maneira de conceber a habitação é diferente (o número de divisões diminui e as áreas são reduzidas), fruto das mudanças sociais. As mulheres começam a trabalhar fora de casa, a lide doméstica reorganiza-se com o recurso a eletrodomésticos modernos (ferro de engomar, frigorífico, máquina de lavar louça) e o modo de viver a casa muda, com a televisão no centro das atenções.

6| A ilusão da casa própria

Nos anos 90, com a entrada de Portugal na CEE e o crédito facilitado, “as pessoas desataram a comprar casa. Esqueceram-se foi de contabilizar as despesas – condomínio, IMI, a conservação do prédio”, realça a autora. “Foi a grande desilusão. Para fazer face às despesas, transformou-se, por exemplo, a casa da porteira em casa de estudantes para alugar”.

7| Tradição lisboeta

Se há uma tradição lisboeta ela é a mistura de classes. Isso vê-se na Graça ou na zona do Castelo, onde o palácio está ao lado de casas populares. Só houve um bairro feito assim: Alvalade, onde não se distinguia quem tinha uma renda económica ou uma renda livre. Esta tradição perdeu-se com o 25 de Abril e, mais recentemente, com os condomínios privados. “É pena, porque não são as posses que distinguem as pessoas”, remata Margarida Acciaiuoli.

Casas com Escritos - Uma História da Habitação em Lisboa > De Margarida Acciaiuoli > Editoral Bizâncio > 784 pág. > €27,50