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Montanhas Mágicas: A magia e as serras

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A autenticidade da vida nas aldeias e a natureza agreste dos maciços da Gralheira e de Montemuro são exploradas na Rota da Água e da Pedra. Naquelas que são conhecidas como as Montanhas Mágicas, há diferentes linhas para explorar

A Aldeia da Pena em São Pedro do Sul

A Aldeia da Pena em São Pedro do Sul

Lucília Monteiro

Faz lembrar uma prateleira de livros volumes e é por isso que a imponente fraga conquistou o nome de Livraria da Pena. Presta-se, claro, a diferentes interpretações, durante o percurso de três quilómetros a ligar as aldeias da Pena e de Covas do Rio, em São Pedro do Sul, conduzido pelo biólogo Paulo Pereira. Aponta para os rastos deixados por trilobites e outros animais cravados na rocha. Fala sobre as mais de 20 espécies de árvores e arbustos a crescerem na envolvente. E conta a lenda do Caminho do Morto que Matou o Vivo. Por fim, tira da mochila uma flauta, dedicando ao grupo uma música única e irrepetível, garante, inspirada no som das águas da ribeira. O efeito encantatório do cenário é potenciado pela melodia, e a marca Montanhas Mágicas, destinada a promover este território, nunca pareceu tão certeira.

Falamos do conjunto montanhoso que atravessa sete municípios (Sever do Vouga, Castro Daire, São Pedro do Sul, Arouca, Castelo de Paiva, Vale de Cambra e Cinfães), composto por dois grandes maciços: o da Gralheira, que integra as serras da Freita, Arada e Arestal; e o maciço do Montemuro, constituído pela serra de Montemuro. Para convidar à exploração deste território, foi criada a Rota da Água e da Pedra, que destaca o património natural e cultural da região, centrado nos rios e nas serras. Pensada como uma rede de metro, apresenta diferentes linhas, cada uma com os seus pontos de interesse, sinalizados em painéis informativos.

Sentir a vida na aldeia
É preciso percorrer uma estrada sinuosa para chegar à Pena, com o seu casario de xisto e de ardósia, encaixado num vale, iluminado durante apenas três horas diárias de sol. Alfredo Brito não se assustou com o clima agreste e mudou-se há quase 20 anos para a terra natal da mulher, quando ali viviam apenas cinco pessoas. “Foi uma grande aventura, começámos do nada”, conta o proprietário da Adega Típica da Pena, o único restaurante e grande dinamizador da aldeia. O seu contributo mais positivo, contudo, terá sido para o saldo demográfico. “Tive aqui a minha filha mais nova; há 39 anos que não nascia cá ninguém”, recorda. Com a participação no concurso 7 Maravilhas de Portugal, notou um aumento significativo de turistas. Na adega, se houver marcações, não fecha a porta. Vitela à Lafões, cabrito e cabidela (de galo criado ao ar livre, acentua Alfredo) são algumas das especialidades servidas em assadeiras fartas. Se sobreviver ao Caminho do Morto que Matou o Vivo, sente-se à mesa.

Este foi um dos pontos altos de uma visita de três dias pelas Montanhas Mágicas, distribuída por três municípios. Em São Pedro do Sul, ainda houve tempo para uma paragem para conhecer as Mariolas da Arada, fazendo a vez dos pastores que recorrem a estas estruturas de pedra para se orientarem neste planalto, a 950 metros de altitude. Não se vê vivalma, mas dentro de pouco tempo isso irá mudar. Na abandonada aldeia de Arada, está a ser desenvolvido um projeto de agroturismo para promover os produtos endógenos. Foram, assim, adquiridas oito casas que estão a ser reconstruídas e transformadas em 14 alojamentos, irá explorar-se um rebanho de cabras autóctones e será criada uma queijaria e uma cozinha típica. “Queremos que o turista sinta o que é viver nestas aldeias”, afirma José Carlos Almeida, presidente da Junta de Freguesia de Carvalhais e do Candal.

Em Castro Daire, atravessamos a serra de Montemuro para chegar a Campo Benfeito, uma aldeia exemplar no que à renovação da população diz respeito. Para isso, contribuíram projetos fora da caixa, como o da cooperativa Capuchinhas. Peças de vestuário de linho, lã e burel, com design original, são produzidas no edifício da antiga escola primária, por um grupo de quatro mulheres. “Quando começámos, há 30 anos, havia apenas uma agricultura de subsistência e faltava emprego para os jovens que tinham de emigrar”, recorda Henriqueta Félix, uma das fundadoras. “E nós queríamos continuar a viver e a criar os nossos filhos aqui.” Aprenderam a tecer e a costurar e, com a ajuda da designer Paula Caria, criaram coleções, hoje vendidas por todo o País e reconhecidas pelo elegante uso das técnicas e tecidos tradicionais. Durante todo o ano, recebem visitas no atelier, onde estão algumas peças para venda e aceitam encomendas.

Das janelas, avista-se o planalto do Balsemão. Há um caminho que conduz até às margens do rio com o mesmo nome, ladeado por lameiros, turfeiras e carvalhais. “É uma área com uma grande dinâmica”, explica o biólogo Paulo Pereira. Há uma espécie em particular, a rara borboleta-azul-das-turfeiras, cuja sobrevivência depende de uma planta, de uma formiga e... de uma vaca. Quem queira aventurar-se um pouco mais, pode seguir o trilho dos carvalhos, de fácil acesso (aconselha-se calçado resistente à água).

Para recolher informação sobre os nove percursos pedestres definidos pela Câmara de Castro Daire, há que passar pelo Centro de Interpretação e Informação do Montemuro e Paiva, instalado no antigo Solar dos Mendonças, no centro da vila. O edifício acolhe ainda peças arqueológicas que ajudam a reconstruir a ocupação humana deste território, assim como salas dedicadas ao troço do rio Paiva que percorre o concelho e à serra de Montemuro. Aproveite estar na sede do concelho e procure, numa pastelaria, o célebre bolo podre, um pão doce outrora cozido apenas durante a Páscoa e que tem hoje honras de confraria.

À beira de água
Em Sever do Vouga, durante umas horas, houve passeio de barco, stand up paddle e canoagem na albufeira de Ribeiradio, formada após a construção da barragem, em 2015. O espelho d’água, que se estende por cerca de 14 quilómetros do rio Vouga, é aproveitado pela Desafios, empresa de desportos de aventura. Por marcação, é possível planear um dia em contacto com a natureza, na serra ou no rio. Junto ao Vouga, há também a praia fluvial da Quinta do Barco, que tem conquistado a bandeira azul nos últimos anos. Na margem direita está o restaurante homónimo, com Alice Bruçô aos comandos da cozinha. “Quando abrimos, em 1996, fiz um levantamento gastronómico da região”, conta. No alpendre, apresenta-nos as especialidades da casa: açorda de bacalhau com ovas, bacalhau frito, lampreia à bordalesa, rojões do redanho, bola de carne e muito mais. Isto como entrada, porque na sala principal, com paredes de pedra, serviu-nos um frango à padeiro e, para terminar, um gelado de mirtilo, dando conta dos saborosos usos desta produção no concelho. Para queimar calorias, rume-se à ecopista do Vouga, que acompanha o antigo traçado da linha ferroviária, desativada nos anos 1980, sempre paralela ao rio. Uma caminhada sem sobressaltos, passando pela antiga estação de Paradela (transformada em café), atravessando túneis de outros tempos e que, no nosso caso, terminou na ponte do Poço de Santiago. Com alguma imaginação, ainda ouvimos o silvo do Vouguinha a soar durante a travessia ferroviária, celebrando a paisagem arrebatadora.

Vougaldeias, em Sever do Vouga, são duas casas recuperadas na aldeia de Couto de Esteves: a Casa da Tulha, com cinco apartamentos (dois T2 e três T1); e a Casa da Seara, também com cinco apartamentos (T1) e uma suite independente

Vougaldeias, em Sever do Vouga, são duas casas recuperadas na aldeia de Couto de Esteves: a Casa da Tulha, com cinco apartamentos (dois T2 e três T1); e a Casa da Seara, também com cinco apartamentos (T1) e uma suite independente

Lucília Monteiro

PARA FOTOGRAFAR

Portal do Inferno e Garra
No planalto da serra da Arada, o Portal do Inferno e Garra é um local de passagem estreita que se ergue entre dois vales escarpados no xisto, oferecendo vistas vertiginosas de incomparável beleza.

AR LIVRE

Rota da Água e da Pedra
Está dividida por nove linhas, como uma rede de metropolitano, que cobrem as serranias entre o Douro e o Vouga. Cada linha é constituída por locais a visitar, como cascatas, ribeiras de águas límpidas, fenómenos geológicos, moinhos, minas e fósseis, sinalizados com painéis informativos. A rota está disponível para consulta no site www.rota-ap.pt.

DORMIR

Termas de São Pedro do Sul
O maior centro termal da Península Ibérica tem dois balneários: o Dom Afonso Henriques, mais moderno, e o Rainha Dona Amélia, de menor dimensão, com os mesmos programas de saúde que aproveitam os benefícios das águas termais e uma ala para tratamentos de bem-estar.
Pç. Dr. António José de Almeida, Várzea, São Pedro do Sul > T. 232 720 300 > jan-dez, seg--dom 9h-12h, 16h-19h

Vougaldeias, Sever do Vouga
São duas casas recuperadas na aldeia de Couto de Esteves: a Casa da Tulha, com cinco apartamentos (dois T2 e três T1); e a Casa da Seara, também com cinco apartamentos (T1) e uma suite independente.
Lg. do Couto de Baixo, Couto de Esteves, Sever do Vouga > T. 96 631 3040 > a partir de €70

Inatel São Pedro do Sul, São Pedro do Sul
Fronteiro ao rio Vouga, o edifício de arquitetura clássica impõe-se na zona termal de São Pedro do Sul. No seu interior, destaca-se a belíssima sala de refeições, a recordar os bailes de outros tempos.
Termas de São Pedro do Sul, Várzea, São Pedro do Sul > T. 232 720 201 > a partir de €51

Aldeia do Codeçal, Castro Daire
No coração da serra de Montemuro, o aldeamento dispõe de nove casas independentes, com decoração tradicional.
Codeçal, Gosende, Castro Daire > T. 91 763 2723 > a partir de €50

Quinta da Rabaçosa, Castro Daire
Fica nas margens do rio Paiva esta quinta com seis casas rústicas, recuperadas. Há piscina, cavalos, barco a remos, e dali parte um percurso pedestre, entre a serra e o rio.
Mões, Castro Daire > T. 93 759 3365 > a partir de €55

COMER

Quinta do Barco, Sever do Vouga
Av. Joaquim Martins, 151, Grela, Sever do Vouga > T. 234 556 246 > ter-qui 12h-14h30, sex-sáb 12h-14h30, 19h-22h

Cantinho da Eira, Sever do Vouga
Só abre para reservas e prepara pratos como vitela assada e cabrito no forno a lenha. Na doçaria regional, destaca-se o leite-creme e o doce de mirtilo.
Couto de Esteves, Sever do Vouga > T. 96 660 7753

Adega Típica da Pena
Aldeia da Pena, São Pedro do Sul > T. 232 731 808 > seg-dom 9h-17h (jantar por marcação)

Adega do Ti Joaquim, São Pedro do Sul
Perto das Termas de São Pedro do Sul, tem como especialidades a vitela à Lafões, o cabrito à padeiro e o bacalhau à Ti Joaquim.
R. Central, Várzea, São Pedro do Sul > T. 96 965 4671 > qua-seg 12h-15h, 19h-22h

VER

Centro de Interpretação e Informação do Montemuro e Paiva Castro Daire
R. Dr. Pio de Figueiredo, 31, Castro Daire > T. 232 319 154 > seg-sex 9h-17h

COMPRAR

Capuchinhas Campo Benfeito
R. da Moutinha, Campo Benfeito, Castro Daire > T. 254 689 160