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Monchique: O Algarve das alturas

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Monchique é serra de água, carvalhos e castanheiros, de ribeiras, moinhos e cascatas que se descobrem, de preferência, a pé. No pico da Fóia faz frio, sim, mas o medronho aquece a alma

Mário Lino

Pico 
da Fóia, o ponto mais alto no Algarve, e o segundo no Sul 
de Portugal (o primeiro é a serra de São Mamede, em Portalegre), é local privilegiado para fotografar

Pico 
da Fóia, o ponto mais alto no Algarve, e o segundo no Sul 
de Portugal (o primeiro é a serra de São Mamede, em Portalegre), é local privilegiado para fotografar

A chuva parou. O azul intenso do céu desvenda agora os raios de sol que se espraiam montanha abaixo até ao mar. Ao longe, a sul, vê-se de Portimão a Sagres. Inspiramos. O rosto queixa--se do frio, mas os pulmões, esses, agradecem o ar puro. Estamos na Fóia, o ponto mais alto do Algarve, a 902 metros de altitude, onde não é novidade a chuva se transformar em neve. O solo rochoso e árido não permite mais do que vegetação rasteira, mas ao descer alguns quilómetros entramos num cenário verde intenso com riachos, ribeiras e cascatas que se precipitam, sobretudo por esta altura.

Monchique é feito de água, e não só de água mineral. Aqui também há águas termais – nas Caldas de Monchique – ligadas ao imaginário local. Tanto assim é que a sua história se confunde com a da conquista cristã do Sul de Portugal. Uma lenda do século XIV, compilada por Gentil Marques, diz que foi uma moura encantada, escorraçada por Afonso III de um palácio que teria sido destruído, a responsável por aquilo que é hoje o núcleo de hotelaria e saúde. As termas, hoje designadas por Villa Termal das Caldas de Monchique SPA Resort, estão a funcionar em pleno com tratamentos, spa e alojamento. Os programas incluem nebulizações, aerossol sónico, irrigações nasais, piscina de hidromassagem, aerobanho, duches de jato e vichy, aplicação de lamas e diversas massagens, sauna e banho turco. Situado na zona histórica da vila termal está O Tasco, um bar de vinhos e tapas cujas paredes têm origem no século XIII, com muita História e algumas estórias para contar. Prévio ao restauro, o local chegou a ser uma carpintaria e até funcionou como escola. Para quem não conhece os petiscos serranos, como a assadura à Monchique, este é um bom sítio para os descobrir. Os fãs de pão com chouriço podem também aqui ser felizes. 
O dito é feito em forno a lenha, diariamente.

Fazemo-nos à estrada de terra batida. Nas mãos, uma moto-quatro. Para aventuras todo--o-terreno em que o objetivo é conhecer locais e contemplar a paisagem em pouco tempo, esta pode ser uma boa opção. Chegamos à aldeia de Barbelote, hoje abandonada pelo homem e reconquistada pela natureza. Carlos Joaquim, nascido e criado em Monchique, guia-nos até a um moinho de água e à cascata do Barbelote. Desconhecida da grande maioria, é uma das mais belas no Algarve. Existem outras, como as cascatas do Chilrão e do Penedo do Buraco.

Durante o percurso, que dura entre quatro e cinco horas, o olhar perde-se na vegetação. Há quem lhe chame “O Jardim do Algarve” e o título é merecido. Aqui há árvores de grande porte como o carvalho-de-Monchique e a adelfeira, e ainda espécies raras a sul, como o castanheiro, o carvalho-cerquinho ou o carvalho-roble. Junto às Caldas, pode ainda encontrar-se a maior magnólia da Europa, e em vários locais é possível contemplar mais de 70 variedades de camélias. Para ver de perto este mosaico natural, o melhor é mesmo a pé.

Em Monchique, há múltiplos percursos identificados para fazer caminhadas a pé. As Veredas de Monchique, com vários índices de dificuldade, estão acessíveis online e navegáveis através de uma aplicação. Incluem, entre outras, a Rota dos Moinhos, a das Cascatas e as da Geologia (Marmelete e Fóia). Recorde-se que Monchique é também um importante produtor de sienito nefelínico, uma rocha de origem magmática extraída na Pedreira da Nave e exportada em doses crescentes para a China e para os Estados Unidos da América.

Nem tanto ao mar nem tanto à serra
Seguimos agora em afável companhia. A oeste de Monchique, na cauda da serra em direção ao mar, há um retiro de burros, gerido por uma alemã, Sofia von Mentzingen. Chama-se Burros & Artes e fica no Vale das Amoreiras, em Aljezur. As artes referem-se a um programa de atividades com destaque para as aulas de olaria, pelas mãos de Elsa Ribeiro. A “frota” contabiliza um total de 17 burros. Para quem não conseguir resistir à Costa Vicentina, existem propostas de passeios de sete dias ao longo da Rota Vicentina, incluindo farnéis, jantar e estada em quarto duplo. Os burros estão incluídos, mas para transportar a bagagem.

Regressamos de novo a Monchique, desta vez de bicicleta. A serra é um ótimo local para 
a prática do ciclismo, incluindo BTT e downhill. Ciclismo de estrada, esse, não é para todos devido às subidas íngremes, e não é por acaso que a Volta ao Algarve tem na subida à Fóia um dos pontos altos. Competições à parte, uma boa ideia poderá passar pela visita ao Adventure Park da Fóia, que organiza múltiplas atividades ao ar livre. O pacote “combinado” é para corajosos: engloba, num só dia, passeio a pé de quatro quilómetros, iniciação à escalada, arborismo, slide e um downhill de BTT de 32 quilómetros até à Barragem da Bravura, que se atravessa a bordo de uma canoa.

Em Monchique, o elixir dos deuses (da serra) é o medronho, destilado artesanalmente. Na maioria, os pequenos alambiques destinam-se a produção caseira, mas o Monte da Lameira ganhou marca. “Produzimos entre 1000 e 1500 litros por ano, mas continuamos a ser uma destilaria pequena e fornecemos maioritariamente a nível local”, garante Helena Martiniano. Ela e o marido, José Paulo, mantêm o negócio que tem passado de geração em geração e promovem visitas à destilaria, mediante marcação. A melosa, feita com mel local, é uma opção mais suave. 
O encontro com o alambique inclui ainda outros mimos ligados à gastronomia local, como o Bolo de Torresmos, a Tiborna e o raro Bolo do Tacho, feito a partir de farinha de milho, a que se junta açúcar mascavado, café, chocolate, azeite 
e erva-doce.

Monchique é provavelmente o melhor local para degustar pratos de carne em todo 
o Algarve. Restaurantes como A Charrete, 
o Jardim das Oliveiras, o Luar da Fóia e a Tasca do Petrol são lugares de paragem obrigatória para quem queira experimentar javali, cozido de grão, morcela ou assadura de porco preto. Iguarias para comer bem sentado, quem sabe nas tradicionais cadeiras de tesoura, únicas no País.

Em Monchique, o elixir dos deuses (da serra) é o medronho, destilado artesanalmente

Em Monchique, o elixir dos deuses (da serra) é o medronho, destilado artesanalmente

Luís Coelho

PARA FOTOGRAFAR

Pico 
da Fóia
O ponto mais alto no Algarve, e o segundo no Sul 
de Portugal 
(o primeiro é a serra de São Mamede, em Portalegre) é local privilegiado para fotografar, em dias de boa visibilidade. Mas há outros, como as cascatas do Barbelote, do Chilrão ou do Penedo do Buraco.

AR LIVRE

Veredas 
de Monchique
São vários os percursos para fazer a pé pelas Veredas de Monchique, identificados no terreno mas também acessíveis online e navegáveis através de 
uma aplicação. Incluem, entre outras, a Rota da Geologia (Marmelete, de nível fácil, e Fóia, de nível moderado), a das Cascatas (nível difícil) e a dos Moinhos (nível moderado).

DORMIR

Vinha do Gaio Agroturismo Monchique
Propriedade agrícola de dois hectares em socalcos com vista para a costa, tem seis quartos, com terraço coberto. Aqui convida-se os hóspedes a colherem os legumes e a fruta para as suas refeições.
Quinta Vinha do Gaio, Cortes, Casais > 
T. 282 912 600 > a partir de €80

VilaFoia Monchique
Construída com materiais locais e ecológicos, a casa de hóspedes está virada a sul, e todos os quartos e suites têm varanda, com vista para o Atlântico. Corte Pereiro, Monchique > T. 282 910 110 > a partir de €119

Quinta do Tempo Monchique
Situada na encosta sul da serra, 
a quinta dispõe de três casas restauradas, mantendo a traça típica e tradicional da região: A Casa da Sá e a Casa do Si (T1), e A Casa da Laje (T1+1). N267, 18, Monchique > T. 282 912 590/96 763 9775 > €70 a €110 (Páscoa)

Villa Termal das Caldas de Monchique SPA Resort Monchique
R. de Caldas de Monchique > T. 282 910 910 > a partir de €53

COMER

A Charrete Monchique
R. Dr. Samora Gil, 
30-34, Monchique > 
T. 282 912 142 > seg-ter, qui-dom 12h-23h

Jardim das Oliveiras Monchique
Sítio do Porto Escuro, Monchique > T. 91 308 1349/96 624 9070 > seg-dom 12h-22h

Luar da Fóia Monchique
Estr. da Fóia, Ceiceira, Monchique > T. 282 911 149 > ter-dom 10h-23h

Tasca do Petrol Monchique
EN 267, Corgo do Vale, Marmelete > T. 282 955 117 > qui-ter 12h-15h, 19h-22h30

Wine & Tapas Bar 
O Tasco Monchique
Caldas de Monchique > T. 282 910 910 > dom-qua 9h30-18h, qui 9h30-19h, sex-sáb 9h30-22h

FAZER

Burros & Artes Aljezur
Junta passeios de burro e aulas de olaria. Pode escolher entre os seniores Romano, Jeco, Margarida e Mocca para passeios de curta duração e para interação com crianças e os juniores, o Kiko, 
o Xiquito, 
a Flor, a Luna, 
o Emil e o Jojó.
Vale das Amoreiras, Aljezur > T. 282 995 068/96 714 5306/93 606 0808 > a partir 
de €20 (adultos), 
€10 (crianças), 
mínimo duas pessoas > burros-artes.blogspot.com

Destilaria 
de Medronho Monte 
da Lameira Monchique
Visitas mediante marcação.
R. da Portela, 
15, Monchique > 
T. 96 270 2039 > €5 
(inclui degustação)

Adventure Park 
da Fóia Monchique
Sítio das Relvinhas, Monchique > 
T. 96 500 4337 > Monchique Challenge 
€65/pessoa (até 4), €75/pessoa (até 2), passeios pedestres €25/pessoa (até 4), paintball €25 (até 9) 
> alternativtour.com

Quads Experience Monchique
Passeios 
em moto-quatro, 
para pequenos grupos com guia.
T. 91 637 9565 > duração 5h50, €60/pessoa (inclui almoço) > www.quadsexperience.com