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Do mundo para Matosinhos

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Há quem atravesse continentes para vir conhecer os trabalhos que marcaram a descolagem do primeiro Pritzker português. Acompanhámos as visitas à obra de Siza Vieira promovidas pela Casa da Arquitetura

Casa de Chá da Boa Nova
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Casa de Chá da Boa Nova

Casa de Chá da Boa Nova
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Casa de Chá da Boa Nova

Casa de Chá da Boa Nova
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Casa de Chá da Boa Nova

Casa de Chá da Boa Nova
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Casa de Chá da Boa Nova

Piscina das Marés
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Piscina das Marés

Piscina das Marés
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Piscina das Marés

Piscina das Marés
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Piscina das Marés

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Piscina das Marés

Quinta da Conceição
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Quinta da Conceição

Quinta da Conceição
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Quinta da Conceição

Quinta da Conceição
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Quinta da Conceição

Quinta da Conceição
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Quinta da Conceição

Casa da Arquitectura, instalada provisoriamente na primeira casa de Siza Vieira
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Casa da Arquitectura, instalada provisoriamente na primeira casa de Siza Vieira

Casa da Arquitectura, instalada provisoriamente na primeira casa de Siza Vieira
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Casa da Arquitectura, instalada provisoriamente na primeira casa de Siza Vieira

Casa da Arquitectura, instalada provisoriamente na primeira casa de Siza Vieira
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Casa da Arquitectura, instalada provisoriamente na primeira casa de Siza Vieira

Casa da Arquitectura, instalada provisoriamente na primeira casa de Siza Vieira
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Casa da Arquitectura, instalada provisoriamente na primeira casa de Siza Vieira

Casa da Arquitectura, instalada provisoriamente na primeira casa de Siza Vieira
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Casa da Arquitectura, instalada provisoriamente na primeira casa de Siza Vieira

Mas, afinal, quanto mede o arquiteto Álvaro Siza Vieira? Pode parecer um pormenor, mas como explica Carla Barros, a arquiteta que acompanha as visitas aos primeiros trabalhos de Siza em Matosinhos, a sua cidade natal, "a obra de Siza é detalhe, detalhe, detalhe".

A altura do arquiteto será também um detalhe, mas que pode fazer a diferença na perceção de algumas das obras. Basta pensar nas aberturas estratégicas ao exterior que projeta, como quem pinta um quadro ou tira uma fotografia. Tome-se o exemplo da entrada na Casa de Chá da Boa Nova, em Leça da Palmeira. Quem tiver a altura do arquiteto verá na janela longitudinal que se abre, em frente, exatamente aquilo que ele queria que se visse: a linha do horizonte. Se não andar perto do metro e setenta (acreditamos seja essa aproximadamente a altura de Siza), faça por vezes o exercício de se encolher ou esticar para ter a perspetiva imaginada pelo autor.

Há pormenores, como este, para os quais Carla Barros vai alertando os visitantes. Mas não se espere uma visita convencional. Será mais um passeio pela arquitetura: "É bom que sejam as pessoas a compreender o espaço, a descobrir o que as fascina." O papel de Carla é mais o de responder a questões, suscitar a discussão em torno do que se vê, contar histórias por detrás dos projetos. Até porque, embora se destinem ao público em geral, boa parte dos visitantes conhece bem o trabalho do arquiteto. Muitos têm a mesma profissão ou estudam para exercê-la.

Até final de setembro, mais de 1700 pessoas efetuaram estas visitas. Quase 70% foram estrangeiros, vindos de toda a Europa, mas também da Coreia, do Japão, da China, dos Estados Unidos.

Ann Pitt trouxe os alunos de mestrado em Arquitetura da Universidade de Boston para conhecer de perto o trabalho do português. Curva-se com as mãos esticadas para mostrar que vê Siza como um Deus: "Fascina-me a forma como usa a luz natural; os detalhes que fazem com que encontremos sempre algo novo; as qualidades esculturais de quem queria ser escultor." Ann está na entrada do edifício do século XIX, onde Siza viveu com os pais e os irmãos e que ele próprio restaurou em 1961. Desde 2009, é lá que funciona provisoriamente a Casa da Arquitetura e é lá, também, que invariavelmente começam as visitas. Os 12 alunos de Ann, como Danyson Tavares, 24 anos, passaram mais de uma hora a desenhar pormenores da casa. O filho de cabo--verdianos emigrados não fala a língua do arquiteto de eleição, mas gosta de entrar na atmosfera privada do Pritzker, onde há até fotografias do tempo em que a casa era habitada pela família.

Pelo traço, jamais se diria que a pequena casa no jardim com evidentes marcas da arquitetura tradicional portuguesa era da autoria de Siza, que a desenhou a pedido do pai, para ele e o irmão estudarem quando tinha apenas 15 anos.

Para os Estados Unidos, onde durante os próximos quatro meses estudará Siza, o grupo americano leva, em croquis, um levantamento exaustivo da intervenção de restauro: o pilar para fazer a ventilação da casa de banho das empregas que Siza quis afirmar no espaço como elemento da arquitetura moderna; o verde que pinta as madeiras, com que evoca as casas onde passava férias junto ao mar; as grandes janelas em guilhotina da casa que fazem a ligação ao jardim; o mobiliário de várias divisões da casa...

O LEGADO DE TÁVORA O itinerário das visitas adapta-se ao interesse dos grupos. Em Matosinhos há 14 obras com a assinatura de Siza. As quatro casas da Avenida D. Afonso Henriques (números 394 e 212) são as primeiras começou a projetá-las em 1954, quando ainda não tinha terminado o curso na Escola Superior de Belas Artes do Porto. Até à Marginal de Leça da Palmeira, por ele requalificada recentemente, contam-se obras construídas de raiz, outras só parcialmente e algumas remodelações. Casas, espaços de lazer, edifícios administrativos, monumentos (como o do Poeta António Nobre, com esculturas de Barata Feio) e até o jazigo da família, no Cemitério de Sendim.

A Piscina da Quinta da Conceição, a Casa de Chá da Boa Nova e a Piscina das Marés integram quase sempre os percursos. Na Quinta, o passeio parte sempre do Pavilhão de Ténis, da autoria de Fernando Távora, a quem, aliás, foi entregue o arranjo de todo o parque público. É ele quem delega o projeto da piscina a Siza, o ex-aluno que convidara para trabalhar consigo no ateliê.

Carla gosta de levar os grupos ao Pavilhão: "É uma obra de transição, marca o início da arquitetura moderna no Porto", explica. No interior do espaço onde materiais tradicionais como a pedra, a madeira ou a cerâmica se cruzam com o betão (então pouco usado) e assumem uma nova estética, quase brincando com o visitante haverá oportunidade para lembrar como Távora influenciou Siza, como as viagens do professor ao estrangeiro seriam determinantes para a arquitetura moderna portuguesa.

Só depois, então, se começa a subida para a piscina da Quinta, numa quota mais elevada.

Os grandes muros brancos que se avistam dificilmente deixam adivinhar a dimensão humana do equipamento, que se descobre depois de ultrapassada a entrada, quase escondida, da piscina. A obra tal como as que visitaremos em seguida adapta-se à topografia do terreno, com os diferentes níveis a darem lugar a superfícies relvadas. O respeito pela natureza é evidente, até no interior dos particulares balneários construídos de modo a formar uma moldura sobre as árvores centenárias em redor.

CONDICIONAR O OLHAR Para chegar à Piscina das Marés (só de nome, já que a água não é do mar, porque como o próprio Siza escreveu "o Atlântico não é o Mediterrâneo") o percurso é inverso. O arquiteto parece não ter querido interromper nem por um momento a linha do horizonte a quem passeia na marginal.

Para o acesso à piscina em que linhas retas de betão se misturam harmoniosamente com a irregularidade das rochas e a areia da praia mergulha o visitante num plano inferior ao do passeio. A rampa conduz aos balneários em madeira escura, que muitos dizem assemelhar-se a estábulos. O que o arquiteto quis, ajuda Carla, foi "criar uma barreira entre o bulício da cidade e o espaço balnear que deveria ser usufruído na plenitude". O itinerário pensado para criar expectativa a quem chega nota-se também ali. Há um percurso a fazer até se ver finalmente o mar, uma passagem pela escuridão até os olhos alcançarem a luz. Siza escreveu sobre os balneários que "estão ancorados como um barco no muro da marginal". O teto faz, de facto, lembrar uma embarcação e deixa o professor belga Pierre Accarain, da Universidade de Lovaina, que trouxe um grupo de quase 40 alunos, totalmente rendido: "Impressiona-me o detalhe, a madeira é trabalhada de forma artesanal." Em Siza, admira acima de tudo a simplicidade: "É uma arquitetura evidente, não há necessidade de procurar as razões. Vemos o equilíbrio, a simplicidade da organização, do posicionamento na paisagem. Nada choca, é quase natural", remata.

É essa mesma naturalidade que se vê quando se avista, ao pé da Capela da Boa Nova (onde Siza casou), a Casa de Chá. A integração na paisagem é de tal forma conseguida, que dir-se-ia que a casa nasceu das pedras, em comunhão com o mar. O concurso para a edificar, no entanto, foi ganho por Távora, que escolheu o lugar de implementação. Mas Siza acabaria por assiná-la ainda como arquiteto estagiário (como se pode ver no projeto original exposto temporariamente no Museu da Quinta de Santiago). Desde março, juntamente com a Piscina das Marés, integra a lista de Monumentos Nacionais.

Nuno Higino, estudioso do trabalho do arquiteto, a partir de uma perspetiva estética e filosófica, realça a curiosidade de algumas das obras mais emblemáticas da carreira de Siza remontarem a uma fase em que ainda está em "processo de maturação". Em muitas, nota, há ainda influência visível de outros arquitetos, mas há marcas que vêm desde essa altura: "A abertura das obras à paisagem quando as deve abrir, o fechá-las quando as deve fechar. Ele não expõe tudo, esconde sempre alguma coisa." Um convite à descoberta, portanto.

TOME NOTA

  • Em breve, será lançado um mapa/roteiro da obra de Siza Vieira na região do Porto. Estará disponível nos postos de turismo, nas sedes da Secção Regional do Norte da Ordem dos Arquitetos (OASRN) e na Casa da Arquitetura
  • A OASRN prolonga as comemorações do Dia Internacional da Arquitetura (3 Out) ao longo de todo o mês, com o "festival" Arq Out. O programa pode ser consultado em www.oarsn.org

CASA DA ARQUITETURA R. Roberto Ivens, 582, Matosinhos T. 22 240 4663 www.casadaarquitectura.pt Visitas: €50/hora (grupo)