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Mãos que trabalham o barro: 8 ateliers de cerâmica que tem que conhecer

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Cruzam a cerâmica com novas linguagens e assim reinventam o ofício antigo, em taças, pratos, candeeiros, jarras, entre outras peças. Oito ateliers para seguir de perto, onde também há aulas para aprender esta arte

Mariana Correia de Barros

Anna Westerlund abriu a loja Together Lisboa, no Chiado. Ali, além dos bules e jarros de tampas e asas forradas a tecidos, estão também à venda os brincos feitos de cerâmica e latão

Anna Westerlund abriu a loja Together Lisboa, no Chiado. Ali, além dos bules e jarros de tampas e asas forradas a tecidos, estão também à venda os brincos feitos de cerâmica e latão

Arlindo Camacho

1. Anna Westerlund Ceramics: As artes cabem todas numa peça de cerâmica

Em boa hora, Anna Westerlund, portuguesa, filha de pai sueco, decidiu abandonar o curso de Publicidade e Marketing para estudar cerâmica na Ar.Co. Às loiças, juntou os estudos de joalharia, desenho, pintura, e essa mistura de linguagens refletiu-se no seu trabalho desde o primeiro dia. “Sempre gostei de juntar fios, tecidos e outros materiais nas peças. Sentia que a cerâmica podia ser limitada em termos de desenho e era uma maneira de lhe dar cor”, conta, em referência aos já conhecidos bules e jarros de tampas e asas forradas a tecidos de cores vivas. Abriu o primeiro atelier com colegas de curso, altura em que largou a carreira de modelo e se dedicou em exclusivo à cerâmica. Mais tarde, montou o estúdio em casa, onde esteve vários anos, para se adaptar aos horários dos filhos. “Acho que travei um bocado o crescimento da marca. Ainda hoje não me sinto empresária, faço uma gestão criativa”, brinca.

Diana Tinoco

Anna Westerlund passou ainda pelo restaurante Chef Nino, na LX Factory, até sentir que era altura de dar o salto. Hoje é em Alcabideche, num enorme armazém onde os jarros, copos, tigelas, bules, taças e tacinhas dividem espaço com as tapeçarias da Oficina 166, que trabalha com uma equipa de cinco pessoas, sempre em grés de alta temperatura (“mais resistente”). Em dezembro, abriu a loja Together Lisboa, no Chiado, e pela mesma altura apresentou os brincos, feitos numa mistura das cerâmicas com latão. “Tenho tido esta vontade de introduzir algumas peças diferentes, de pegar em produtos mais artísticos em que não há a ligação óbvia à funcionalidade.” Estr. de Manique, Edifício AutoMaterial, Alcabideche, Cascais > T. 21 139 2964 > www.annawesterlund.com

Cécile Mestelen trabalha sobretudo com barro branco, ao qual junta um pigmento de cor e areia da praia, o que dá às peças uma textura original

Cécile Mestelen trabalha sobretudo com barro branco, ao qual junta um pigmento de cor e areia da praia, o que dá às peças uma textura original

Marcos Borga

2. Olho Cerâmica: A casa da artista Cécile Mestelan, que mistura barro, cor e areia de praia

A francesa Cécile Mestelan iniciou-se no que se pode chamar Primeira Liga da Cerâmica: uma residência de três meses na Vista Alegre, em Ílhavo. “Aprendi tudo aí.” Com o curso Belas-Artes, e até então a trabalhar em esculturas de gesso, mudou-se para Lisboa com o marido, português, altura em que começou a fazer algumas exposições e a trabalhar em ateliers de cerâmica, até recorrer à plataforma de crowdfunding Kickstarter. “Queria abrir um espaço meu, dividir com mais pessoas, e recorri ao financiamento para comprar um forno. Às pessoas que me ajudaram, ofereci uma peça cozida no tal forno.” Este foi o pontapé de saída para a abertura do Olho Cerâmica, primeiro em Campo de Ourique, agora na Estrela, que acaba por funcionar como um cowork, onde, além de aulas (a partir dos €90), tem outros residentes. “A Rita, por exemplo, usa a técnica da roda [de oleiro] e ajuda-me em muitos projetos grandes.”

Cécile trabalha sobretudo com barro branco, ao qual junta um pigmento de cor e areia da praia, o que dá às peças uma textura original. Pratos, tigelas, canecas, jarras, chávenas com pegas diferentes, nunca há duas peças iguais. “Inspiro-me em muita coisa, em formas geométricas e recorro sempre às bonecas Kachina, do povo Hopi, do Arizona, nos EUA. Agora ando a deixar as peças decorativas de lado; tenho feito mais trabalhos utilitários.” Vende online, em algumas lojas de Lisboa e, nas últimas sextas e sábados de cada mês, abre o atelier para sample sales (venda de amostras, a preços mais em conta), com outros residentes. É aparecer. R. de Santo Amaro, 38, Armazém, Lisboa > T. 91 363 6334 > www.olhoceramica.pt

Gabi Neves e Alex Hell fundaram o Studioneves em São Paulo, Brasil. No início de 2018 mudaram-se para Portugald

Gabi Neves e Alex Hell fundaram o Studioneves em São Paulo, Brasil. No início de 2018 mudaram-se para Portugald

Marcos Borga

3. Studioneves: A versão 2.0 de um estúdio de cerâmica especializado em restauração

Assim que os potenciais clientes – chefes de cozinha, sobretudo – entram no Studioneves, em Alcabideche, são encaminhados para uma mesa onde estão expostas dezenas de peças de cerâmica. “Chamamos de ‘pontos de partida’ e, em 80% dos casos, resolvem o que os chefes procuram. Os outros 20% é trabalho em conjunto”, refere Alex Hell, brasileiro, da Studioneves, a trabalhar em cerâmica para restauração desde 2011. Lançou a marca com a mulher, Gabi Neves, em São Paulo, depois de ambos terem passado pela publicidade, vivido em Barcelona um ano (fizeram um curso de cerâmica em Girona) e de terem percebido que queriam mesmo era ter um negócio próprio. “Um dia, uma amiga – um anjo! – comprou as nossas peças para uma empresa de catering, a partir daí percebemos o rumo que ia tomar.” Em 2014, o icónico chefe brasileiro Alex Atala descobriu a Studioneves e a vida do casal nunca mais foi a mesma. “Sempre dissemos no dia que tivéssemos de comprar um carro blindado era porque estava na hora de ir embora. Esse dia chegou, eu tenho família cá e assim o fizemos”, conta Gabi.

Quando se mudaram para Portugal, no início de 2018, tinham 220 restaurantes como clientes, muitos fora do Brasil, como o DEN, em Tóquio, no Japão, e o Central, em Lima, no Peru. “Aqui foi quase começar do zero”, refere Gabi. Instalaram-se em fevereiro e começaram a trabalhar apenas em outubro. “Comprámos tudo, arranjámos novos fornecedores de fornos, de pasta para as peças. O mais importante na cerâmica de gastronomia é serem resistentes à acidez e alcalinidade”, explica Alex, que aplica uma fórmula quase matemática para testar cada peça. “Das 950 que fizemos entre outubro e dezembro, sobraram oito.” É Gabi quem desenha e trabalha as peças numa prensa, numa roda (chamam-lhe ‘torno’) de oleiro ou à mão; e Alex o responsável pelo tempo de forno, o esmalte e a parte de venda e ligação aos chefes. “Ela faz a carne, eu o molho”, brinca. Feitoria, Prado, Ceia, Midori, Fortaleza do Guincho e até o futuro Bairro Alto Hotel são alguns dos restaurantes que já contam com as criações da Studioneves, cujos cozinheiros passam sempre pelo estúdio para pôr as mãos na massa. “Para perceber que isto não é perfeito, é manual.” Estr. de Manique, 1610, Alcabideche, Cascais > www.studioneves.com

D.R.

4. Otchipotchi: A natureza como inspiração

Paula Valentim lançou a Otchipotchi em 2010, marca 100% ligada à Natureza, cujas peças são feitas a partir de moldes de pedras, folhas ou ramos. O trabalho, num estúdio pequeno, tem sido constante e, se ao princípio havia andorinhas ou pratos de parede, quase sempre de porcelana branca sem vidrado, hoje são as jarras de parede e de mesa ou os troncos que mais sobressaem, já com outras cores. Vende online e em algumas lojas do País. www.otchipotchi.com

5. Pratos da Prats: Estas peças nascem de naperons

Inês Prats herdou um conjunto de naperons de renda da bisavó e um dia, numa aula de cerâmica na Argentina, onde vivia na altura, decidiu fazer um prato com um deles. “Pus no Facebook, teve imenso sucesso e decidi fazer uma coleção de 40. Vendi tudo.” Assim nasceram os Pratos da Prats, sempre peças únicas, para decoração ou uso diário, que vende nas redes sociais, e aos quais se juntam novidades, com outros materiais e cores. Instagram: @pratosdaprats > www.facebook.com/pratosdaprats

Cátia Pessoa, a cara da Caulino Ceramics, com loja e atelier perto da Sé de Lisboa

Cátia Pessoa, a cara da Caulino Ceramics, com loja e atelier perto da Sé de Lisboa

Diana Tinoco

6. Caulino Ceramics: Loja, atelier e estúdio aberto a quem quer aprender

“Toda a gente tem a capacidade para fazer qualquer coisa em cerâmica.” A crença é proferida por Cátia Pessoa, a cara da Caulino Ceramics, com loja e atelier perto da Sé de Lisboa, onde recebe pessoas de várias nacionalidades. Tirou Design de Interiores, trabalhou como modelo, assistente de fotografia e, depois, foi estudar cerâmica no Ar.Co. Em 2006, abriu a Caulino com outras colegas, já com o objetivo de ter aulas, peças para venda e mostrar o processo de feitura ao vivo. “Na altura não entrava ninguém.” Os anos foram passando, saíram as sócias iniciais, entraram outras pessoas – hoje são cinco –, e tanto os projetos como os alunos foram-se multiplicando. Cátia trabalha de perto com os chefes José Avillez, para quem já fez peças decorativas e utilitárias, e Diogo Noronha (restaurante Pesca), entre clientes particulares. “Tenho muita sorte, porque quase nenhum me impõe limites.”

Diana Tinoco

E se as borboletas de cerâmica coloridas (dão uma bela parede) são uma espécie de imagem de marca, Cátia assume que anda sempre à procura de coisas diferentes. “Para evoluir tecnicamente tens de desafiar-te.” Na Caulino, trabalham com barro de diferentes tipos, cores e texturas, têm dois fornos e os workshops começam nos €40 (uma aula). Têm também a modalidade estúdio aberto, que funciona como um cowork, para ceramistas. E espaço há que sobra: este ano, aumentaram o atelier para a sala ao lado e recebem trabalhos de artistas de outras áreas. Entre candeeiros, jarros, esculturas e afins, estão, até junho, as roupas do estilista Dino Alves. R. de São Mamede, 28, Lisboa > T. 91 244 7703 > seg e qui 11h-21h, ter 10h-18h, qua 11h-20h, sex 11h-18h > caulinoceramics.com

Daniel Pego

7. Patrícia Lobo Ceramics: Candeeiros de linhas simples

Com uma carreira em cinema, publicidade e televisão, Patrícia Lobo descobriu a cerâmica há dois anos e, depois de muito pensar, pesquisar e meter as mãos na massa, encontrou um nicho de mercado: a cerâmica para iluminação. Faz candeeiros de tecto, de parede ou de mesa – sempre com o intuito de terem mais do que uma possibilidade de utilização –, em tons pastel, terrosos e neutros, com um tipo de barro líquido (barbotina de enchimento) e cozidos numa mufla a gás, que proporciona a cada peça texturas e nuances que a tornam única. www.patricialoboceramics.com

Úrsula Duarte, portuguesa, e Maud Téphany, francesa, abriram o Sedimento Ceramics Studio perto do Jardim da Estrela. Além de atelier, têm também workshops seis vezes por semana

Úrsula Duarte, portuguesa, e Maud Téphany, francesa, abriram o Sedimento Ceramics Studio perto do Jardim da Estrela. Além de atelier, têm também workshops seis vezes por semana

José Carlos Carvalho

8. Sedimento Ceramics Studio: Balões, jarras, chávenas para comprar e muitas técnicas para aprender

É num open space de 120 m2, no rés do chão de um prédio perto do Jardim da Estrela, sempre de portas escancaradas para a rua e com muita luz natural, que Úrsula Duarte, portuguesa, e Maud Téphany, francesa, trabalham diariamente no projeto Sedimento. Tanto em encomendas como em peças próprias ou de perto com os alunos que recebem nos cada vez mais concorridos workshops de cerâmica. Abriram o estúdio há dois anos, depois de estarem a trabalhar juntas noutro atelier e sentem que, por estarem num bairro residencial, têm “um maior número de portugueses a frequentar as aulas”. “Há pessoas que querem fazer coisas para a casa, outras que querem descansar dos computadores. Temos uma aluna que nos diz que isto é mais barato do que ir ao psicólogo”, conta Úrsula.

José Carlos Carvalho

Na Sedimento, há workshops seis vezes por semana, com lições em que se ensinam várias técnicas manuais e se trabalha faiança e grés. Os preços começam nos €80/mês (quatro aulas) e vão até aos €140/mês (oito aulas), com tudo incluído, exceto o barro. Em paralelo, entre projetos que vão tendo para restaurantes e chefes – como João Sá e Vasco Coelho Santos, por exemplo – ou para ateliers de decoração, como o AnahoryAlmeida, trabalham em peças próprias, que vendem ali mesmo ou noutras lojas. “Eu faço muito esculturas, peças decorativas”, explica Maud, que estudou artes plásticas; “E eu gosto de dar às minhas peças uma função”, diz Úrsula, arquiteta de formação. Por isso, entre balões, jarras, candeeiros, chávenas, pratos, aqui encontra de tudo um pouco. Tv. de Santo Ildefonso, 31, Lisboa > T. 92 714 4531/ 96 695 3201 > seg, ter e qui 11h-21h, qua e sex 11h-18h > www.sedimento.pt