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Couto: Na boca de toda a gente?

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A empresa portuguesa conhecida pela sua célebre “pasta medicinal” Couto comemora 100 anos 
no próximo mês de junho. Com algumas novidades e muitas histórias para contar

Em 2017, venderam-se 700 mil unidades de pasta dentífrica Couto, de 60 gramas, a maioria para o mercado nacional

Em 2017, venderam-se 700 mil unidades de pasta dentífrica Couto, de 60 gramas, a maioria para o mercado nacional

Lucilia Monteiro

Não há dia que Alberto Dionísio Gomes da Silva, 80 anos, não passe pelas instalações da Couto S.A., em Vila Nova de Gaia. O atual sócio maioritário e sobrinho do fundador, Alberto Ferreira do Couto, trabalha na empresa desde os 17 anos. Ou até antes, conforme conta, quando o tio o “mandava ir para lá passar uns dias, durante as férias grandes”.

Conhecida, sobretudo, pela pasta medicinal Couto, a empresa nasceu em 1918 como Farmácia Flôres e Couto, no Largo de 
S. Domingos, no Porto. E chegará ao centenário, no final de junho, acreditam os responsáveis, com os olhos postos no futuro. E com muitas novidades. Oitenta e cinco anos depois da invenção da pasta que prometia “dentes fortes, gengivas sãs, boca saudável” e que, nos anúncios de televisão, nos mostrava um malabarista a segurar uma cadeira com a boca. Nos últimos dois anos, a Couto lançou quatro produtos (o creme desodorizante, o creme de mãos, o sabonete e o creme hidratante) e, no último Natal, ainda uma vela aromática e uma lata vintage. Em março, sai também para o mercado uma linha de homem (creme de barbear, after shave, óleo e champô para a barba) e, em junho, será lançado um conjunto de embalagens retro, pensado a partir da caixa de cor de laranja e do losango da pasta de dentes (colónia e gel de banho).

A empresa centenária parece, pois, estar a ganhar uma nova dinâmica, o que, em parte, se deverá a Alexandra Matos Gomes da Silva, 47 anos, mulher de Alberto e atual diretora comercial, que quer reposicionar a marca num segmento vintage. Ideias não lhe faltam. “Temos de evoluir. Os tempos são outros”, conclui Alberto Gomes da Silva, sem esquecer os anos em que a produção de pasta medicinal começou na farmácia, no rés-do-chão de um prédio de cinco andares no número 106 do Largo de 
S. Domingos. “Na altura, era nas farmácias que se faziam os medicamentos, as injeções, os preparados… A porta ficava junto à estrada, tinha uma parte de armazém que fornecia outras farmácias. No terceiro andar fazia-se a pasta, no quarto e quinto o enchimento e embalamento. Era uma fábrica na vertical”, lembra. Quis o destino que Alberto tivesse nascido a dois passos dali, na Rua Sousa Viterbo, cinco anos depois de o seu tio ter inventado a célebre pasta de dentes. Após ter começado a trabalhar no escritório “a classificar faturas e a escrever à máquina”, herdou a empresa após a morte do tio, em 1974, acumulando o cargo com o de gestor da Drogaria Castilho, situada junto ao café A Brasileira. “Tenho alguma saudade dessa altura. O Porto do meu tempo era com carros de bois e cavalos.”

A mulher de Alberto Dionísio Gomes da Silva, Alexandra, quer reposicionar a empresa no segmento vintage

A mulher de Alberto Dionísio Gomes da Silva, Alexandra, quer reposicionar a empresa no segmento vintage

Lucilia Monteiro

Clorato de potássio

A vida de Alberto Gomes da Silva esteve sempre ligada à pasta medicinal. Entretanto, teve de alterar a designação para pasta dentífrica, mas foi o produto âncora da empresa (só em 2017 venderam-se 700 mil unidades de 60 gramas, a maioria para o mercado nacional). Nos anos 50, juntaram-se à empresa dois outros produtos míticos: o Restaurador Olex e o Petróleo Olex, que representam, respetivamente, 7% e 5% da faturação global (900 mil euros, no ano passado). A vida do empresário confunde-se, por assim dizer, com a da pasta dentífrica: chegou a ser feita por pouco mais de 30 trabalhadores (hoje são nove) e, ainda agora, segue a mesma receita dada, nos anos 30, ao tio de Alberto por um dentista, que lhe terá sugerido introduzir clorato de potássio na composição (que combatia os problemas nas gengivas provocados pela sífilis).

Terá sido essa fórmula que a pôs “na boca de todos os portugueses”, como dizia a publicidade da altura. Um dos anúncios de televisão era o tal do malabarista a segurar uma cadeira com a boca. A ideia nasceu do próprio Alberto, durante uma viagem que fez com o tio a Lourenço Marques. “Vi um malabarista, achei-o excecional e convenci o meu tio a levá-lo a atuar em Lisboa, no Maxime, de que era sócio”, recorda. Assim nasceu o anúncio, tal como os restantes cartazes publicitários da década de 60, cujas imagens retro serão vendidas a acompanhar as caixas de lata vintage, de edição limitada, que a Couto está neste momento a lançar. A gestão de décadas da empresa e, mais tarde, também da Fundação Couto – o infantário e creche que acolhe mais de 400 crianças em Vila Nova de Gaia – pouco tempo livre deixaram a Alberto Gomes da Silva, que teve no hipismo e nos automóveis as suas grandes paixões – as férias de verão eram passadas a viajar pela Europa (chegou a ir de Nápoles a Estocolmo e à Turquia). Hoje, se for preciso, ainda conduz a empilhadora de paletes. E é vê-lo de sorriso nos lábios e... dentes brancos.

Ainda este ano, a empresa centenária pretende abrir uma loja da Couto no Porto. E tem também a intenção de levar os seus produtos com imagem vintage até à hotelaria.

A imagem da pasta dentífrica Couto está a dar origem a outros produtos, como o creme hidratante e o sabonete

A imagem da pasta dentífrica Couto está a dar origem a outros produtos, como o creme hidratante e o sabonete

Lucilia Monteiro

Couto > Largo da UTIC, 100, H2, Laborim, Vila Nova de Gaia > T. 22 716 9760 > À venda em todo o país