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O novo Isto é um Restaurante, em Lisboa, é muito mais do que um restaurante

Comer e beber

Ir jantar ao Isto é um Restaurante vale mesmo a pena, porque a comida é saborosa e impele-nos à partilha. E ainda há o bónus de se saber que os empregados estão num real processo de reinserção social

O Isto é um Restaurante começu a ser pensado em 2016, quando a Câmara Municipal de Lisboa propôs à associação Crescer que criasse um espaço para os sem-abrigo comerem

O Isto é um Restaurante começu a ser pensado em 2016, quando a Câmara Municipal de Lisboa propôs à associação Crescer que criasse um espaço para os sem-abrigo comerem

Gonçalo F. Santos

São nove da noite e, como em qualquer restaurante que se preze, os pedidos não param de cair na cozinha. Mas o chefe David Jesus não se perde em pormenores, até porque está seguro da sua equipa, que responde às solicitações da sala com bastante entusiasmo. Enquanto frita uma rabanada – a base de uma das três sobremesas –, Luísa Gomes, 51 anos, articula o seu discurso por entre palavras como “paixão” e “força de vontade”. Não trabalhava há dez anos e está feliz com esta janela que se abriu sobre uma existência errante e as noites a dormir num prédio devoluto que em breve entrará em obras. A azáfama de Luísa é partilhada com mais dois colegas: um não quer falar com jornalistas, o outro esconde-se numa identidade falsa. Chamemos-lhe Miguel, para contar a história do ex-sushiman que, aos 42 anos, viu neste restaurante a oportunidade de voltar a pôr a vida nos eixos. “Ao princípio achei que isto não ia resultar, que as pessoas não estariam preparadas nem teriam perfil para aqui estar”, confessa enquanto salteia uns cogumelos.

A ementa tem curadoria do chefe Nuno Bergonse, mas quem executa a comida de conforto e partilha é David Jesus, com os seus ajudantes

A ementa tem curadoria do chefe Nuno Bergonse, mas quem executa a comida de conforto e partilha é David Jesus, com os seus ajudantes

GONCALO F SANTOS

Enganou-se redondamente. O Isto é um Restaurante começou a ser pensado em 2016, quando a Câmara de Lisboa propôs à associação Crescer que criasse um espaço para os sem-abrigo comerem. Américo Nave, o diretor-executivo, pensou precisamente o contrário: fazer nascer um restaurante em que os sem-abrigo servissem a comunidade. A coisa tornou-se realidade no início deste mês e tem corrido lindamente. Todas a noites se servem cerca de 40 jantares saborosos. A ementa tem curadoria do chefe Nuno Bergonse, mas quem executa a comida de conforto e partilha é David Jesus, com os seus ajudantes.

Os cogumelos que Miguel salteia na cozinha chegam à mesa pela mão de Rui Coelho, 50 anos, que tinha pouca experiência disto antes de embarcar no projeto. Valeu-lhe a formação para desenvolver competências básicas, dada pela Crescer, e depois os ensinamentos aprendidos na Escola de Turismo de Lisboa, um dos 17 parceiros que se juntaram para pôr a ideia a funcionar.

A escolha da equipa de 14 pessoas, divididas em dois turnos, foi demorada e difícil (os cerca de 100 candidatos submeteram-se a três entrevistas). “Não tínhamos critérios definidos. Essencialmente, procurámos pessoas motivadas e com vontade de reorganizar a vida”, explica Alexandra Evaristo, a psicóloga que acompanhou o processo de seleção. Atualmente, continua a vir ao restaurante diariamente para gerir as inseguranças de um novo quotidiano. Em janeiro, a equipa já não será a mesma, porque a ideia é que este espaço sirva de escola e de rampa de lançamento para estágios noutros sítios e, depois, para um emprego na restauração.

Quem entra por esta porta verde não tem de saber nada disto, mesmo que repare na placa que agradece o empenho dos parceiros ou no jogo aberto nas páginas da ementa. É que vir aqui comer é exatamente igual a fazê-lo noutro bom restaurante. A comida recomenda-se vivamente e os preços são justos.

A refeição há de começar com um couvert de pão da Gleba com manteiga de tomate seco e manjericão, e cenoura à algarvia. Depois, dependerá do número de pessoas, porque a variedade de pratos convida a que se peçam três doses por cada duas pessoas. A decisão torna-se mais fácil, porque assim não é preciso escolher entre uma salada de beterraba com laranja e sésamo (€6), uns peixinhos da horta com molho tártaro (€5,50) ou uma abóbora assada com queijo de cabra, cevada e avelãs (€6,50). A seguir, ainda se podem pedir umas batatas-doces bravas, com maionese de alho e pimentos padrón (€4,50) e uma tiborna de pato que já vem dividida em quatro (€7). “Queremos dar uma apresentação simples e jovem, que seja de fácil aprendizagem, porque a equipa vai rodar”, justifica David Jesus. Este grupo de pessoas já está no ponto, ou não fosse isto um restaurante.

Não é a primeira vez que o nome do chefe Nuno Bergonse aparece ligado a projetos de integração social. Há dois anos que se dedica ao Marhaba, criado pelos beneficiários do É Uma Vida da associação Crescer, integrados no programa municipal de acolhimento de refugiados. Com um grupo de sírios, eritreus e palestinos, organiza jantares pop-up em vários locais da cidade.

Da cozinha à sala, a equipa está empenhada em fazer chegar à mesa pratos portugueses de assinatura

Da cozinha à sala, a equipa está empenhada em fazer chegar à mesa pratos portugueses de assinatura

Gonçalo F. Santos

Isto é um Restaurante > R. de São José, 56, Lisboa > T. 21 362 0192 > ter-sáb 20h-23h30