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A discreta grandeza da Quinta da Aveleda

Comer e beber

Empresa cem por cento familiar, a Quinta da Aveleda, instalada na Região do Vinho Verde desde 1870 e presente no Douro, na Bairrada e no Algarve, mantém intactos o seu lugar de origem e o seu carácter. A opinião do crítico gastronómico da VISÃO Se7e, Manuel Gonçalves da Silva

As visitas guiadas à quinta, em Penafiel, dão a conhecer os jardins e a adega velha, onde repousam as barricas de carvalho francês que guardam a célebre aguardente e parte da produção

As visitas guiadas à quinta, em Penafiel, dão a conhecer os jardins e a adega velha, onde repousam as barricas de carvalho francês que guardam a célebre aguardente e parte da produção

Lucilia Monteiro

Já toda a gente ouviu falar da Quinta da Aveleda e dos seus vinhos, graças à notoriedade de marcas como a bem-afamada Aveleda ou a popular Casal Garcia, por exemplo. Mas quem sabe que é gerida pela mesma família, os Guedes (parentes dos Guedes da Sogrape, também preponderantes no mundo dos vinhos), há cinco gerações? Quem viu a beleza dos seus jardins, vinhedos, casas, adegas e demais instalações, cujas portas estão franqueadas ao enoturismo? Quem conhece a sua dimensão empresarial que, além da Região do Vinho Verde, se estende ao Douro, à Bairrada e ao Algarve? Quem associa ao seu portefólio alguns dos melhores vinhos do Douro e do País, como os Quinta Vale D. Maria? Quem observou a forma como a Aveleda cresceu e ganhou importância, nos últimos tempos, sem ostentação nem alarido? Estas perguntas, obviamente retóricas, visam chamar a atenção para os valores tão diversificados de uma empresa singular que vale a pena conhecer.

Na história da Aveleda, assinalam-se três marcos: 1870, ano em que Manoel Pedro Guedes deixou a capital para se instalar na Quinta da Aveleda; 1939, data da criação do vinho Casal Garcia, um fenómeno de vendas em todo o mundo, até hoje; a atualidade, sob liderança dos primos Martim e António Guedes (quinta geração), com o desenvolvimento de novos vinhos e bebidas (Casal Garcia Sweet, Casal Garcia Sangria, gamas Premium e Superpremium da Quinta Vale D. Maria), a exploração de novos terroirs e a expansão dos horizontes da empresa.

Uma quinta que se visita
Existem, na Aveleda, 86 casas habitadas por atuais e antigos trabalhadores da quinta; os seus jardins, de recorte romântico, acolhem animais, como pavões, gansos e cisnes, por exemplo, num cenário encantatório que também inclui a casa senhorial, residência dos Guedes, a loja, a adega velha, a eira, a janela manuelina, a torre das cabras (anãs), a própria casa do porteiro e a vinha. Franqueando as portas, através do enoturismo (que também está a ser desenvolvido em Villa Alvor), os visitantes podem familiarizar-se com todas as maravilhas da quinta e compreender o orgulho da Aveleda, quando diz ser “a única empresa de vinhos portuguesa a ter a certificação EFR, Empresa Familiarmente Responsável”.

Também impressionam os números relativos à sua atividade: na Região do Vinho Verde, aos cerca de 100 hectares da Quinta da Aveleda e a outra propriedade que já possuía na mesma sub-região do Sousa, juntou, recentemente, terrenos e vinhas nas sub-regiões de Basto, do Lima e do Ave, perfazendo um total de 400 ha. No Douro, acrescentou, em 2017, os 31 ha da célebre Quinta Vale D. Maria, adquirida a Cristiano van Zeller, aos 42 ha da Quinta do Vale Sabor, que já detinha; na Bairrada, é dona da conhecida Quinta da Aguieira, com 21 ha; em Alvor, Portimão, acaba de comprar a Villa Alvor, de 14 ha, e de marcar presença no Algarve. Dispõe, assim, de uma diversidade de terroirs extraordinária com um potencial enológico sem limites.

Quanto aos vinhos, a Aveleda tem-se caracterizado pela produção em quantidade e com indiscutível qualidade, bem acima do que os preços no mercado sugerem. Em 2018, produziu 19 milhões de garrafas, 70% das quais foram exportadas para mais de 70 países em todo o mundo, com as marcas Aveleda e Casal Garcia em destaque. As vendas ascenderam a mais de 38 milhões de euros. Com a aquisição da Quinta Vale D. Maria, em 2017, ficou clara a intenção de apostar também nos vinhos de topo de gama. Mais motivos para o consumidor rejubilar.

Vinhos para todos os gostos
Numa vista de olhos ao portefólio registamos: na Aveleda, cinco vinhos desta marca – Aveleda Vinho Verde, Aveleda Loureiro, Aveleda Alvarinho, Aveleda Reserva da Família Alvarinho e Quinta da Aveleda Loureiro e Alvarinho – com perfis diferentes, mas todos bem feitos e apetecíveis (também pelo preço), que podem caracterizar-se sumariamente pela frescura, elegância e mineralidade; e o Casal Garcia nas suas múltiplas facetas – Vinho Verde, Sweet, Rosé, Fresh Red, Tinto, Sangria, Sangria Frutos Vermelhos e Sparkling – de estilo jovem, inovador e descomprometido.

No Douro, os vinhos singulares da Quinta Vale D. Maria (Vale D. Maria Rufo, Vale D. Maria VVV Valleys, Quinta Vale D. Maria Tinto, Vale D. Maria Vinha de Martim, Vale D. Maria Vinha da Francisca e Vale D. Maria Vinho do Rio, todos Douro DOC; Vale D. Maria Reserva Porto e Vale D. Maria Vintage Porto, moldados pela Natureza e assinados por Cristiano van Zeller; no Algarve, as oito versões de Villa Alvor – Branco, Rosé, Tinto, Singular Sauvignon Blanc, Singular Moscatel Galego Roxo, Singular Alicante Bouschet, Domus Branco e Domus Tinto – têm marca de origem bem assinalada no seu perfil. O espumante da Quinta da Aguieira é um clássico, e os restantes vinhos que produz vão ter nova imagem, que está em estudo. Na Quinta do Vale Sabor, não há projeto de marca própria. Todas as vinhas das sub-regiões do Vinho Verde integram a produção da Aveleda.

Quinta da Aveleda Vinho Verde 2018

Vinho emblemático da Aveleda, elaborado com as castas Loureiro e Alvarinho, de baixa graduação alcoólica (11,5% vol.) e muito boa acidez, aspeto brilhante, cor citrina muito suave, aroma incidente na fruta, com boas notas florais, paladar macio e fresco com alguma untuosidade, muito equilíbrio do conjunto. Boa companhia para comidas com peixes gordos ou temperos orientais, como o caril. €4,99

Villa Alvor Singular Sauvignon Blanc IG Algarve 2018
Surpreendente adaptação da casta Sauvignon Blanc ao terroir algarvio de Alvor: bela cor de tom esverdeado, aroma intenso e concentrado expressivamente frutado (maracujá, toranja, melão), paladar fresco e delicado com textura sedosa e um aliciante toque tropical. Gastronómico e com estrutura para acompanhar tão bem a cozinha oriental de temperos fortes, como as caldeiradas portuguesas de sabores delicados. €11,99

Quinta Vale D. Maria Douro DOC Tinto 2016
Resulta de um lote de 41 castas típicas do Douro que se encontram nas vinhas velhas originais da Quinta Vale D. Maria. Tem cor profunda de tom violeta, aroma muito concentrado a frutos vermelhos maduros, sobressaindo a cereja e a framboesa, e a especiarias, paladar elegante e ao mesmo tempo poderoso, com taninos muito finos, maduros e aveludados, final longo e harmonioso, que deixa uma sensação de plenitude. €45